Banksy

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é como aqueles jogos
que se brincam com gatos
a fita um pouco mais no alto
balançando um passo mais longe
sempre ao alcance das unhas
mas eu não tenho garras
e pelos dedos
me escapas

A escolha da imagem:

Banksy, Balloon Girl

Difícil dizer quem é o artista. Banksy é um personagem mítico no mundo do street art. Originário de Bristol, Inglaterra, sua real identidade resta desconhecida. Ele teria nascido em 1974 e começou a manejar as latas de tinta no anos 80, depois de concluir uma formação de açougueiro. Encontramos sua arte provocativa em muros e paredes em diversas cidades da Europa. Criativo ele consegue chocar com suas mensagens e chama atenção pela técnica. Seus estêncils,  espécie de molde que artistas de rua utilizam para fazer a pintura com agilidade, são tão detalhados que pensamos que ele utiliza computadores para fazê-los.

Revolucionário e anti-guerra ele usa sua arte como um meio de comunicação para mostrar seu descontentamento com alguns fatos sociais e situações políticas. Em 2005, Banksy fez intervenções no muro de Gaza (veja aqui), na fronteira entre Israel e Palestina, com paisagens fantásticas e uma variação dessa obra que publicamos, uma garota que se deixa levar por balões, se transportando além desse muro da vergonha.

Banksy utiliza com frequência a imagem de ratos e macacos com traços humanos acompanhados de slogans provocativos. Outros temas são policiais, militares, idosos e crianças. Em 2004, um ato ousado: o artista imprime notas falsas de 10 libras e no lugar da imagem da rainha da Inglaterra ele coloca a princesa Diana e muda o “Bank of England” inscrito sobre as notas por “Banksy of England”. O dinheiro falso circula no carnaval de Notting Hill chamando atenção para as nebulosas causas do acidente da princesa.

Recentemente o artista esteve em uma exposição coletiva no Museu de La Poste, em Paris, Au-delà du Street Art (Além da Arte de Rua), que foi uma agradável surpresa pela qualidade dos trabalhos, o humor e a crítica refinada de vários artistas que participaram da mostra. Para nós, que no Brasil estamos acostumados com a pichação, fica díficil às vezes encontrar a fronteira entre a arte e o vandalismo. Mas na Europa é comum ver essas verdadeiras obras de arte tão bem integradas na paisagem urbana. Paredes abandonadas, construções e becos ermos se tornam belos através de um trabalho super elaborado, porém efêmero.

A obra escolhida é, creio eu, uma das mais conhecidas. Não é raro encontrá-la reproduzida em galerias e feiras de artesanato em Londres. Uma imagem simples, a silhueta de uma menina que perde seu balão. Mas o balão tem o formato de um coração e aí qualquer um que já teve um amor que partiu, que escapou pelos dedos ou voou para longe, se identifica, se emociona. E nem é necessário explicar porque ele ilustra o poema. Deixe sua imaginação escapar e voar ao mais longe através de algumas frases e uma imagem simples. [Fernanda Souza]

P.S.: Conheça mais as obras do artista clicando no link no nome do artista na apresentação da imagem e nos hyperlinks espalhados pelo texto
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Linz Lynn

Liberdade

Windswept

Quero mais liberdade

Liberdade pra te amar
Pra te deixar
Pra voltar

Quero ser mais livre

Livre pra te abraçar
Pra te tocar
Te beijar

Quero liberdade total

Pra falar
Pra te ouvir
Pra calar

Quero me sentir mais livre

Pra ir embora agora
Pra voltar quando quiser
Pra sentir saudade

É pena, meu amor
Preciso voar

A escolha da imagem

Linz Lynn, Windswept, Tela em giclée com pintura em ouro à mão no fundo. Edição de 50 peças.

Quando vi essa obra ela me fez lembrar o espírito da Gi, esses cabelos revoltos, esse colorido intenso. Depois foi só olhar a lista de poesias e logo que vi o título Liberdade pensei: é esta!

Na obra da inglesa Linz Lynn, radicada nos Estados Unidos, esta mulher de cabelo multicor, radiante e jogado ao vento que para mim representa a mulher da poesia. Livre para voar, para partir; representada da esquerda para direita como quem vai na direção oposta, contra ao vento. Ela quer amar com liberdade de ir e vir, pois o amor não é o bastante nem para lhe fazer voar, nem para manter seus pés no chão. Ela precisa do voo colorido e solitário, é dessas pessoas que são transportadas pelos ventos da liberdade individual, de quem se conhece bem, se aceita e se vê multicor.

No título da obra – algo como varrida pelo vento – e na expressão da mulher vemos uma contrariedade, uma certa tristeza contida pela força de quem ela é, o choro engolido, a pena de quem precisa seguir em frente.

A artista, natural de Londres, está radicada nos EUA desde 1992. Desde pequena mostrou interesse pelas artes e seus pais a enviaram, então para uma escola de teatro. Em 73 ela passou a dedicar sua criatividade artística para a pintura e seu conhecimento teatral lhe ajudou a ter sensibilidade para transferir emoções para suas telas. Ela usa a técnica do giclée, nome de origem francesa que significa espirrar, jorrar. A técnica é utilizada para imprimir obras de arte em diferentes materiais através de impressora jato de tinta de alta definição. [Fernanda Souza]

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Daniel Senise

Romance de viajantes

a fantasia represou na memória o beijo
que faltou para completar o idílio
e assim vai alimentando o desejo
de multiplicar os segundos
e alongar o tempo

na retina, entre águas e cenários
ficou impresso um olhar e um riso
e os poucos passos que a hesitação
impediu a coragem de aproximar

ainda encontro esse olhar e esse riso
em algum ponto dessa estrada sem fim
talvez aqui ou em outra paisagem

A escolha da imagem

Daniel Senise, S.R. 34, (anos 2010)

Impressões da memória é disto que fala o poema e esta é a matéria-prima para as pinturas do artista contemporâneo carioca Daniel Senise. É no chão que o pintor busca memórias. Em espaços abandonados onde cria um atelier temporário, Senise imprime a superfície, seja ela de madeira ou cimento. Sua pintura colagem registra tudo que passou naquele espaço, a sujeira, as imperfeições da madeira, os traços de vidas que pisaram aquele chão.

O poema fala da lembrança de um amor não realizado, uma impressão de um olhar e um riso que a imaginação levou a guardar na memória como um beijo. Os quadros do artista como esse acima, imprimem uma memória do material, mas a impressão imaterial que cria na nossa memória pode nos fazer ver além, criar histórias sobre esse espaço, sobre por quem ali passou e o que deixou. Eu vejo algo no meio desse quadro, talvez os personagens do nosso poema, uma impressão da existência de uma paixão fugidia, registrada na memória, esquecida no tempo. Você também vê algo?

Abaixo um vídeo que fiz sobre o artista durante uma exposição retrospectiva no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs). O som está ruim, mas o próprio Senise explica a sua técnica e é sempre bom, mais do que ouvir críticos que interpretam os trabalhos de arte, ver o próprio artista falando sobre sua obra. [Fernanda Souza]

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Salvador Dalí

Desengano

Sonho para ti aqueles momentos de raro prazer
que se iniciam com uma taça de vinho e terminam
em longas horas das quais não se contam os minutos

Te reservo meus pensamentos mais secretos
embalados por suaves sonatas a olhos fechados
desenhando caminhos com meus dedos
gelados de espera e paixão contida
pelos teus cabelos negros

Sonho
e nesses sonhos doces minha alma se enleva
Mas o coração apequena, quase desaparece
Porque te faltam olhos de ver sonhos, e a mim
falta coragem.

A escolha da imagem

Salvador Dalí,  Remorse or Sphinx Embedded in the Sand, 1931, Kresge Art Museum*

Sonhos e devaneios eram a matéria-prima das obras do surrealista espanhol Dalí. No sonho o ambiente é desconhecido, esquecido após o despertar. No pensamento temos as imagens, mas estamos sozinhos, imergidos no ambiente árido e frio de nosso imaginário, pois que não é concreto, não há o outro, não há o toque. A alma se enleva, a sombra de si? do outro? projetada nesse vácuo que é o pensar, nesse vácuo que é o sonhar. Os olhos fechados, a mão que cobre os olhos, os olhos que faltam, o desespero da covardia e talvez do despertar. [F.S.]

* Obrigada ao Juan Pablo Severo que ajudou a encontrar o nome da obra.
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Arte popular e Street Art

Amor platônico

Quando o moço bonito
passava pela minha janela
meu coração acelerava

Esperava, ansiosa,
uma olhadela, um sorriso
Doce paixão juvenil
a pintar sorrisos no meu rosto

A janela mudou de lugar
agora pisca à minha frente
iluminada e colorida

Mas ainda acelera o coração
à espera ansiosa de atenção
para pôr sorrisos no meu rosto

A escolha da imagem

Namoradeiras, esculturas populares da cidade de Tiradentes, Minas Gerais

Logo que li o poema pensei nessas esculturas de negras na janela à espiar os moços bonitos, como faziam as personagens da literatura do século 19, como fez Aurélia, do Senhora de José de Alencar. Era o jeito de flertar da época. Assim, sem sair de casa, as moças direitas poderiam ficar à disposição dos galanteios e, quem sabe, fazer casamento.

Pois essas as peças artesanais, chamadas de Namoradeira, viraram um símbolo da cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. Elas enfeitam o casario histórico sempre nessa mesma posição, com a cabeça apoiada na mão, essa posição de espera e charme para os passantes. Feitas de madeira, cerâmica ou gesso, essa arte popular mineira vem ganhando as janelas do país. Com vestidos decotados, maquiagem e bijuterias, as moças colocam a roupa de domingo a espera de seus pretendentes, com olhar de sonho, à espera de uma paixão ou de ver mais uma vez passar o objeto de seu amor platônico [F.S.]

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Gustvav Klimt

Por que te amo

Nas noites estreladas,
a luz do espaço se transfigura no teu olhar
e já não sou mais triste

A lembrança do teu riso
enche o vazio dos meus entardeceres
no Norte

No teu abraço
minha solidão errante encontrou abrigo
e agora tenho um lugar no mundo

Por tudo isso
te amo assim, com a suavidade
das brisas que vêm do mar

Porque teu amor é doce
e transforma minhas certezas provisórias
em preces por permanências

Te amo
porque transformas meu mundo
em algo belo

E porque não é mais preciso
refugiar minhas fragilidades em silêncio
e melancolia

E se não fora nada disso,
ainda assim te amaria como te amei
desde o princípio

A escolha da imagem

Gustav Klimt, Der Kuss ,1908, Österreichische Galerie Belvedere museum

A obra O beijo de Klimt pode ser clichê para representar o amor, mas não seria o próprio sentimento clichê? O sentimento que nos deixa a todos com os mesmos desejos, nos faz falar as mesmas palavras, ver o mundo mais belo, nos fazer sentir ter encontrado nosso lugar no mundo, a nossa tão esperada felicidade?

O sentimento do amor nos traz símbolos universais, seja pela arte ou pela poesia. A pintura do simbolista austríaco, considerada obra-prima do início do período moderno mostra esse aconchego, a noção de ter seu próprio lugar no mundo quando se está nos braços do amado. Dois corpos que quase parecem um, unidos numa bela composição Art Nouveau, em trajes elaborados do período de ouro do artista.

Klimt pintou a obra quando ainda morava com a mãe e duas irmãs solteiras. Embora o aparente recato, era um homem com um feroz apetite sexual e o quadro reflete sua fascinação pelo erotismo. Mas creio que todo mundo vê nesse quadro a beleza de um sentimento romântico. As flores em torno da cabeça da personagem feminina remetem a esse mundo de sonho quando se está amando.

A roupa do casal para mim é uma colcha de retalhos, que os une e os cobre, fragmentos de diferentes tecidos, como são compostas as relações. Apesar do ouro, das flores, da beleza dos primeiros momentos, o amor se contrói de várias diferentes peças e uma vida a dois só funciona quando ambos se encaixam numa composição que une e pode ser tecida por toda a vida. [F.S.]

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