Música

A poesia se foi
Um dia, atravessou a rua
ficou indecisa um instante
Direita? Esquerda? Retorno?
Escolheu e seguiu adiante,
nem um aceno por cima do ombro.
Dobrou a esquina
e não foi mais vista.

A escolha da arte
Ten Years Gone, Led Zeppelin

Aqui se fala da poesia, mas nós também podemos tomar nossas licenças poéticas, não? É bom que se aperte o play e comece a ler, porque aí a palavra acaba na tela e continua na voz do Robert Plant e nesses riffs do Page que nos deixam catatônicos.

Ten Years Gone é uma canção de um Led Zeppelin já famoso e vagando pela estrada. Ia dizer “de um dos melhores discos”, mas não tem melhor disco do Led.

Ela fala de um lindo amor que Plant vivia antes da banda estourar, e por obra das circunstâncias deixou para trás, para chegar até nós. Ele mostra como as mudanças causaram essa distância, e quando fala da música hoje em dia diz que “nunca mais a viu”.

Contudo, há lembrança. A marca que tudo deixa no nosso caminho particular fica lá, intacto. E por si só desencadeia mudanças também.

A poesia pode nos deixar quantas vezes ela quiser, e ela vai fazer isso. Porque é livre. Mas a firmeza é densidade, e não permite que a gente deixe de lado o que já nos fez bem, a palavra, o afago e o afeto. Que tenha sido em um centésimo de momento. Será, hoje. Será, daqui dez anos. [Daniela Ribeiro]

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Música

Todas as cidades são iguais
Aço, concreto e pressa
Vandalismo, arte e lixo

Cada cidade é única
Um edifício que se reinventa
impressionantemente colorido
E nos faz olhar para cima

Todas as cidades são iguais
Trânsito, buzina, irritação
E esses preços que só sobem

Cada cidade é única
Histórias guardadas
em tantas esquinas

Todas as cidades são iguais
Para os olhos de cada um

A escolha da música:
Cities, Talking Heads

Quando li esse poema me veio imediatamente a canção do Talking Heads na cabeça. Além de ser uma das minhas favoritas, ela tem essa mesma cadência frenética, de alguém que está procurando um lugar no mundo, um espaço ideal pra viver.

“Find a city, find myself a city to live in…”

A batida funkeada e o compasso bem quebrado compõem a estética inaugurada pela banda chamada de “Art Rock”, por isso, não vejo um nome melhor para inaugurar minha participação por aqui.

Na letra, David Byrne explora com humor as características das cidades, brinca que Memphis é ao mesmo tempo a casa de Elvis e dos gregos antigos, e ao longo do percurso ele vai enlouquecendo, deixando todas para trás.  

No fim das contas, todas têm coisas boas e ruins, e incrivelmente funcionam do jeito que são. Talvez sejamos nós que precisamos nos adaptar, não? [Daniela Ribeiro]

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Nailia Schwarz

Mulheres Maravilha

Nailia Schwarz

Nós assoviamos e chupamos cana
enquanto escolhemos o caminho
no campo minado do cotidiano

Nós dançamos e equilibramos pratos
enquanto nos preocupamos e sorrimos
e, às vezes, quebramos alguns

Nós adoçamos essa vida dura
com um pouco de poesia e arte
mas, às vezes, elas nos escapam

A escolha da imagem

A escolha da imagem foi obra do acaso. Vi um site de fotografia recomendado por um amigo no facebook, fui espiar, ao mesmo tempo conversávamos eu e a Fer sobre o fato de que precisamos de umas férias, e bati o olho nessa imagem. Ela é perfeita para esse momento em que nós duas estamos atribuladas com novo trabalho, mudanças, viagens, e quando vemos, é sábado e não escolhemos a poesia e a arte para publicar. Esse site é um projeto para nos dar prazer e satisfação, não dor e obrigação. É nossa janela da alma, não um lugar onde batemos ponto. Então, se precisamos de férias, férias tiraremos. Provavelmente voltamos depois do carnaval.

O poema foi a inspiração da hora, nasceu agora há pouco mesmo, olhando pra essa imagem e conversando sobre nosso cotidiano. Afinal, a Fer e eu somos mulheres maravilha ao nosso jeito. A obra é de uma fotógrafa alemã cuja biografia não encontrei, mas, para quem arriscar um alemão ou um google translate, o site oficial dela, com outras fotos muito legais, está aqui. [Gisele Neuls]

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Maria Bonomi

menina

Perdi teu olhar
pelo caminho,
ganhei saudade…

Perdi teu abraço
no fim da linha,
ganhei solidão…

Perdi teus lábios
já nem sei onde,
ganhei tristeza…

Perdi teu amor,
ganhei poesia…

A escolha da imagem

Maria Bonomi, Menina, 1946

Dessa vez a Gi escolheu a obra para o poema. Passei para ela o site de Maria Bonomi [www.mariabonomi.com.br] e ela encontrou essa pintura de 1946. Se a data está correta, a artista tinha apenas 11 anos quando a fez. Nascida na Itália, de mãe brasileira, deixou o seu país natal nos primeiros anos da 2ª Guerra Mundial e foi morar com o avô, o já afamado Giuseppe Martinelli, no Rio de Janeiro. Com a morte do avô em 1946, Maria se instala em São Paulo. A artista, como ela mesma diz, sempre teve obessão do desenho, uma maneira de lidar com o problema de surdez que a acompanhava quando criança. Com talento precoce, em 1950 ela é levada ao atelier do expressionista Lasar Segall. Este a encaminha para a pintora Yolanda Mohalyi com quem começa a desenvolver suas técnicas de pintura. Hoje Bonomi é um dos nomes mais expressivos da gravura brasileira.

Mas voltando à obra, essa menina triste retrata uma precoce poetiza que pode perder tudo, mas da experiência sempre ganhará a poesia. Para não esquecer da inspiração e não se deixar perder na imaginação do olhar ao longe dos poetas, o fiel companheiro, o caderno, registro da memória, da criação. O quadro tem traços modernos, no fundo abstrato e nos traços inacabados. “Não sei explicar como, mas sem conhecer a pintura moderna, meus primeiros quadros tinham um parentesco com a escola impressionista”, conta a artista no livro Maria Bonomi: da gravura à arte pública. [Fernanda Souza]

A escolha da imagem 2

Quando a Fer me mostrou essa artista, logo me identifiquei com esse quadro. Eu fui uma menina como essa, com arroubos de melancolia, rabiscando versos nos meus cadernos, a cabeça enfiada em livros e romances imaginários. Logo o quadro me lembrou desse poema, simples mas cheio dessa melancolia, dessa tristeza profunda e mansa, que toma todo coração poema vez por outra. [Gisele Neuls]

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Vassily Kandinsky

O Trem

O coração é de um poeta é um trem desgovernado
cheio de sentimentos prestes a descarrilar
Uma profusão de emoções desencontradas
Se amontoam nos cantos do pensamento
Deformando a vista das coisas do mundo

– ou será que as coisas do mundo são todas
deformadas e o olhar poético é que as conserta?

A escolha da imagem

Vassily Kandinsky, Gelb-Rot-Blau (Jaune-rouge-bleu), 1925, Centre Pompidou

O russo Vassily Kandinsky é o pioneiro da abstração nas artes plásticas. Nesse quadro, chamado Amarelo, vermelho e azul, temos a “profusão de emoções desencontradas” que se passa no coração do poeta, como diz o poema. Não há sentido nessas figuras sem formas, essas linhas que atravessam a obra, essas cores que misturadas criam tons inimagináveis. Será uma obra deformada? Será nosso olhar capaz de lhe dar sentido, de consertá-la?

Kandinsky procurava em suas linhas bem traçadas, essas geometrias lúdicas e essas cores particulares à ele substituir o objeto da arte clássica. Ele procurava o “espiritual na arte”, que é o nome de uma de suas obras de estudo. Como os poetas, ele tinha uma “necessidade de interior”. E como retratar esse sentimento particular de cada artista? O que se passa dentro dele no momento da inspiração? Essa avalanche de sentimentos, o trem desgovernado que precisa entrar nos trilhos para que a obra, seja poética ou uma pintura, ganhe materialização. Eis o que vemos na tela. [Fernanda Souza]

*Foto Fernanda Souza, Centro Pompidou, Paris, 2010

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Friedensreich Hundertwasser

Voragem

são horas e horas de pensamentos tortos
se perdem na voragem dos poréns e senãos
desses que todos os dias se acumulam
e nos esvaziam

mastigo cada um deles por mais uma dúzia de horas insanas
e chego ao esplêndido fastio daquilo que não resolveremos
deglutido em pedacinhos açucarados de cotidiano

a busca das palavras cheias de significados só meus
e que precisam de outros tantos substantivos, adjetivos, conjunções,
e que ademais não dão substância alguma aos pensamentos
me escraviza

com a crueldade dos vícios
mais doces e, por isso mesmo,
mais violentos

A escolha da imagem

Le je ne sais pas encore La Picaudière, Friedensreich Hundertwasser, 1960, KunstHausWien, Vienne

Os espirais de austríaco Friedensreich Hundertwasser são para mim uma representação dos pensamentos, esses pensamentos que giram na mente, coloridos como são as ideias que se conectam e se desconetam nesse labirinto que não pode ser traduzido somente em palavras.

No site do artista, está escrito que “os espirais são o símbolo da vida e da morte”, que nos movemos em círculos mas que eles não são fechados. Assim são os pensamentos que também nos definem como vivos ou mortos – cogito ergo sum – já dizia Descartes com o seu penso, logo existo.

Esse espirais representam também o processo de criação poética, dar forma através de “substantivos, adjetivos, conjunções” a esse labirinto de ideias que se explodem em cores no cérebro mas que precisam de um começo e um fim.

Hundertwasser, além de pintor, também foi arquiteto e militante ecologista. O humano e seu ambiente foi o centro de suas obras. A escolha desse espiral entre tantos que ele criou se dá devido ao nome, numa tradução livre: “O eu não o sei ainda”. Como são os pensamentos tortos, como é o processo de criação artística e poética, mas em meio a esse confuso labirinto, um espiral sempre tem um curso. [F.S.]

> saiba mais sobre o artista

P.S.: Para ler esse poema do jeito certo, leia as linhas que contêm apenas uma palavra como parte da linha de cima. O template não é muito amigável com frases longas e ‘quebrou’ o ritmo de alguns versos. Por exemplo, no verso “mastigo cada um deles por mais uma dúzia de horas insanas” é um só, apesar da última palavra estar na linha de baixo ;) [G.N]

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