Música

Excesso

Essas noites frias de chuva
me desacomodam o espírito.
Invejo a gota no vidro
despreocupada
simples.

Meu coração não é simples
se inquieta, imagina
perde o compasso
desobedece.

E me sobra a poesia
pra acalmar meu excesso.

A escolha da música:
Sister Midnight, Iggy Pop

A batida fria da música tem uma latência dançante, como a intranquilidade do excesso confinado de alguém, a quem só cabe contemplar uma chuva mansa.Saída da mesma forma da “Red Sails”, de David Bowie, “Sister Midnight” é mais cortante, menos melódica. Nela, a angústia se constrói gradualmente, repetitiva, como pensamentos obsessivos, culminando em relatos gritados de sonhos incestuosos. Como controlar emoções estratificadas até o nível do subconsciente? E quem é a “irmã meia-noite”? Talvez uma contraparte, irmã, quase-eu, eternamente enraizada no meio da noite, o coração dos excessos – de todos os tipos. A vigília inquieta sondando este possível alter-ego, modelando visões mentais numa viagem parada é a poesia que sobra. [André Silva]

Sobre o poema:
Nenhuma arte anda só, como a proposta deste site mostra. Em meu processo criativo, dialogo com outros poetas, cujos versos também me inspiram. Este poema é fruto de um destes diálogos poéticos com um amigo de longa data, Joel Guindani, que costuma postar seus versos no PoesiaSer. Quando escrevi este, em 2012, a gente conversava sobre os nossos processos de criação, nossas inspirações, etc.. Joel recém tinha postado esse poema e eu me propus a usar a mesma inspiração que ele. O detalhe é que Joel estava em uma tarde chuvosa na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, eu, numa tarde ensolarada no Centro Oeste. O poema é, portanto, uma inspiração baseada no diálogo poético e na memória da melancolia da chuva. [Gisele Neuls]

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Oswaldo Goeldi

Solidão líquida

goeldi

Chove.
A cidade oscila entre o cinza e o azul,
a noite oscila entre o negro e o cintilante.
Respiro longo para sentir o ar gelado,
para calar o fundo do peito.

Encho-me de frio e umidade
para calar ânsias e desatinos,
desejos e destinos.

São horas de distâncias e ausências,
de vazios e palpitações.
Horas de borboleta sob o copo.

Chove.
A cidade se reflete, úmida e bela.
Penso longe, imaginação-água,
aguda, desvairada
impossível.

São horas de melancolia.

A escolha da imagem

Oswaldo Goeldi, Chuvacirca 1957, xilogravura a cores, 2/12, Coleção Frederico Mendes de Moraes

Quando Goeldi fez as ilustrações do livro Cobra Norato do escritor Raul Bopp em 1937, ele disse que o artista era “interessado em passar ao leitor a poética do texto”. E eis que essa sua xilogravura delicada parece ter sido feito sob medida para os versos desse poema. Desenhista e ilustrador, o artista fazia trabalhos para jornais, revistas e livros como meio de ganhar a vida, mas é como gravador que se destaca.

O tema chuva é recorrente em sua obra, influência dos 18 anos que o artista carioca viveu na Suíça. A chuva é associada à solidão, à nostalgia, aos desatinos e ânsias que a personagem do poema quer calar na umidade dessa solidão líquida. A solidão é o eu interior do artista na sua arte e a chuva é um dos temas sombrios escolhido por Goeldi, bem como a morte, personagens marginais, cenas noturnas e recantos abandonados. Temas que ficam muito bem representados no preto e branco da xilogravura. Mas o artista também ousa em usar cores nos seus trabalhos. As tentativas começaram em 32 mas é em 37, com o livro de Bopp, que ele sistematiza a técnica.

Entre outras obras mais sombrias associadas ao tema da chuva, essa em especial traz o vermelho, que para os românticos alemães, escola ao qual o artista fazia parte, significa alegria. “Goeldi associa estados de alma à cor vermelha”, é o belo que traz a chuva do poema. É a melancolia que tem uma esperança no verde do horizonte.

Eu tenho vivido numa cidade chuvosa e algumas vezes o líquido das precipitações se misturam às lágrimas que insistem em cair enquanto eu caminho em noites geladas e penso em todos os anseios que tenho, os desatinos que atormentam a minha alma, as distâncias curtas que se fazem longas, que se fazem ausência, que me dão vazio que calam no fundo do peito, uma frieza no coração, uma umidade na alma. Penso nas distâncias longas que não quero percorrer e na solidão que tudo isso me provoca.

E essa umidade da alma me fez lembrar de um trecho do livro Como água para chocolate, de Laura Esquivel, a teoria dos fósforos, é hora de tentar reacendê-los, antes que minha alma seja impregnada de umidade:

“A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigênio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigênio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer tipo de alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentiremo-nos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras, esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica úmida e já não poderemos acender um único fósforo.
Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que o corpo que deixou inerte, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.”

Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos úmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução.

Tita deixou que algumas lágrimas deslizassem pelo seu rosto. Com doçura John secou-lhas com o seu lenço.

– É claro que também é preciso ter o cuidado de ir acen­dendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver normalmente e então aparece aos nossos olhos um túnel esplendoroso que nos mostra o caminho que esquecemos no momento de nascer e que nos chama a reencontrar a nossa origem divina perdida.” [Fernanda Souza]

*Recomendo a clicar nos links que espalhei pelo texto (que são bem sutis nesse template do blog, tem que passar o mouse por cima). Eles são do site oficial do artista, que tem muitas informações e é bem organizado.

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