Marina Abramović

As dores do casamento

THE HOUSE WITH OCEAN VIEW 5.preview

Quero te amar como mereces ser amado
porque não há ninguém mais especial no mundo.
Que modo será o mais correto?

Quero ser a esposa perfeita
e te proporcionar todo o contentamento.
Qual o melhor modelo de perfeição?

Quero que te orgulhes de mim
por ter tantas qualidades que te importam.
O que faço com minhas tantas falhas?

Busco pistas escondidas pelos dias
na medida do café, no tempero da comida
no mate que me espera pronto ao acordar.

Mas amor é incerteza e medo
que afligem o coração sem piedade
e torturam até a alma mais feliz.

A escolha da obra

Marina Abramović, Instalação The House with the Ocean View

Muita gente se emocionou com o video postado no youtube chamado de Um Minuto de Silêncio, que mostra o encontro de Marina Abramović com o seu ex-companheiro de trabalho e de vida Ulay após 23 anos de uma separação dramática em uma das últimas performances do casal. Quando me deparei com esse vídeo, vi que ele fazia parte de um documentário lançado em dezembro de 2012, realizado durante a retrospectiva que o MoMa de Nova York organizou em 2010 em consagração da “avó da arte da performance”. Um cinema de um centro cultural de Paris ainda estava com o filme em cartaz e fui mergulhar no universo dessa artista emblemática e que uma de suas performances retrata bem o poema “As dores do casamento”.

A instalação The House with the Ocean View (A casa com vista para o oceano) mostra três cômodos de uma casa onde a artista ritualiza ações simples do cotidiano como deitar, sentar, pensar, sonhar, como manifestação de um único estado mental. Ela reproduz cenas do dia-a-dia, como tomar banho, em uma casa de onde “você não pode sair”, segundo Marina, devido às facas nas escadas. É neste ambiente ao qual você está voluntariamente preso, do qual sair não é impossível, mas pode machucar, que encontramos a metáfora para o poema “As dores do casamento”. A busca da perfeição nos gestos diários de uma relação na qual você quer o melhor mas que também te impõe uma rotina, o automatismo do cotidiano que muitas vezes resulta no fracasso de um casamento e a pressão de fazer o melhor para algo que é sempre incerto pois não há garantias  no amor, não há garantias no casamento.

Na verdade, a obra foi inspirada pela Nova York pós 11 de Setembro. Marina tinha voltado para lá e viu como a cidade tinha mudado, as pessoas estavam mais vulneráveis  Ela resolveu então fazer a performance para “purificar a si mesma, sem comer e só beber água pura. O conceito é estar presente representando sua casa com banheiro, sala e quarto… num jeito de viver rigoroso. Ela queria se purificar para mudar o ambiente e as pessoas que foram lhe ver, fazendo-as esquecerem do tempo. Alguns vinham para alguns minutos e ficavam 3h (escute o depoimento completo em inglês da artista).

Marina é uma artista que redefiniu a arte nos últimos 40 anos. Sua carreira começou em Belgrado nos anos 70 sempre usando seu corpo como meio e vencendo seus próprios limites com performances que chocam, provocam e emocionam. De 1975 a 1988 ela se une ao artista alemão Ulay e eles trabalham as questões da dualidade em diversas performances como os dois de costas um para o outro e amarrados pelos cabelos. Um casal numa mesa de jantar que se olha em silêncio durante horas ou gritando um com o outro, bem como “Imponderabilia” onde ficam nus frente a frente nos dois lados de uma porta e obrigam o público a se esfregar contra suas carnes nuas para passar. Os dois percorreram a Europa durante 5 anos morando em uma caminhonete e fazendo arte. Depois de 12 anos juntos eles decidem se separar através da performance The Great Wall Walk. Marina e Ulay percorrem a Muralha da China durante 3 meses em lados opostos, se encontram no meio e um abraço sela o final da relação artística e amorosa.

No documentário o encontro dos dois acontece antes da cena vista no youtube. Marina conta que estava cansada das traições de Ulay, por outro lado, ele revela que ela tinha um caso com o melhor amigo do casal. Descobrimos também que foram necessários 8 anos para ter autorização do país para fazer o trajeto e neste meio tempo Ulay engravidou a tradutora.

Após The Great Wall Walk ela retoma sua carreira solo em 1989 e ela desabafa no filme: Eu tinha 40 anos, estava gorda, sem trabalho e perdi meu amor. Como um coração partido é o melhor motivador de uma mulher, Marina passa a trabalhar mais, no começo fazendo espetáculos de teatro – que é o que dava dinheiro – e continuando com as performances, conseguindo se reafirmar como artista. Ulay a chama de ambiciosa no filme. Ele acabou sendo um artista medíocre pois admite que é preguiçoso para trabalhar. Eu diria que entendo as razões dela…

Em 2010 a consagração de Marina vem com a retrospectiva no MoMa intitulada “The artists is present” (A artista está presente). Além dos vários andares do Museu de Arte Moderna de NY que mostravam imagens e vídeos de instalações, Marina estaria realmente presente em mais uma performance que exigiria esforço e disciplina. Simples: duas cadeiras frente a frente, Marina sentada em uma delas recebia o público que se revezava para passar um minuto ou mais em silêncio, somente trocando olhares com a artista. Durante três meses ela passou o dia inteiro sentada, na mesma posição, desde a abertura até o fechamento do museu, sem levantar, sem ir ao banheiro, sem comer, alimentando-se somente da energia e do carinho do público que muitas vezes se emocionava e caia no choro. “Um visitante passa 30 segundos a contemplar uma obra de arte, mesmo em frente à Monalisa. Mas na exposição de Marina, os espectadores ficavam horas”, alguns dormiram do lado de fora do museu para conseguir seus 30 segundos com a artista. O documentário mostra vários retratos desses visitantes.

Na exposição as suas performances mais marcantes foram reproduzidas por 41 jovens artistas escolhidos e treinados por Marina. Mais do que uma ideia, a performance artística exige esforço, disciplina física e mental e superação de limites. A educação rígida de pai militar lhe deu o preparo que ela precisa e a carência da relação com a sua mãe é suprida nessa necessidade de ter o público por perto, como seu alimento e também como forma de reconhecimento do seu trabalho.

Ela fez workshops com os jovens artistas em sua casa de campo onde cozinhou massa com molho de abobrinhas para recebê-los e achei engraçado e me identifiquei pois esta foi uma receita que a Gi me ensinou e que não é muito ortodoxa, quando a fiz aqui na França ela foi recebida com um certo estranhamento.

Após 40 anos de dúvida se seu trabalho é ou não arte, Marina se diz cansada do rótulo “alternativa”: “Tenho 63 anos! Eu não quero mais ser alternativa! Eu quero que a performance seja uma verdadeira forma artística respeitada antes da minha morte”. O sucesso na exposição do MoMa com certeza mudou este panorama e Marina não é só avó, mas diva da performance. [Fernanda Souza]

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Linz Lynn

Liberdade

Windswept

Quero mais liberdade

Liberdade pra te amar
Pra te deixar
Pra voltar

Quero ser mais livre

Livre pra te abraçar
Pra te tocar
Te beijar

Quero liberdade total

Pra falar
Pra te ouvir
Pra calar

Quero me sentir mais livre

Pra ir embora agora
Pra voltar quando quiser
Pra sentir saudade

É pena, meu amor
Preciso voar

A escolha da imagem

Linz Lynn, Windswept, Tela em giclée com pintura em ouro à mão no fundo. Edição de 50 peças.

Quando vi essa obra ela me fez lembrar o espírito da Gi, esses cabelos revoltos, esse colorido intenso. Depois foi só olhar a lista de poesias e logo que vi o título Liberdade pensei: é esta!

Na obra da inglesa Linz Lynn, radicada nos Estados Unidos, esta mulher de cabelo multicor, radiante e jogado ao vento que para mim representa a mulher da poesia. Livre para voar, para partir; representada da esquerda para direita como quem vai na direção oposta, contra ao vento. Ela quer amar com liberdade de ir e vir, pois o amor não é o bastante nem para lhe fazer voar, nem para manter seus pés no chão. Ela precisa do voo colorido e solitário, é dessas pessoas que são transportadas pelos ventos da liberdade individual, de quem se conhece bem, se aceita e se vê multicor.

No título da obra – algo como varrida pelo vento – e na expressão da mulher vemos uma contrariedade, uma certa tristeza contida pela força de quem ela é, o choro engolido, a pena de quem precisa seguir em frente.

A artista, natural de Londres, está radicada nos EUA desde 1992. Desde pequena mostrou interesse pelas artes e seus pais a enviaram, então para uma escola de teatro. Em 73 ela passou a dedicar sua criatividade artística para a pintura e seu conhecimento teatral lhe ajudou a ter sensibilidade para transferir emoções para suas telas. Ela usa a técnica do giclée, nome de origem francesa que significa espirrar, jorrar. A técnica é utilizada para imprimir obras de arte em diferentes materiais através de impressora jato de tinta de alta definição. [Fernanda Souza]

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Gustvav Klimt

Por que te amo

Nas noites estreladas,
a luz do espaço se transfigura no teu olhar
e já não sou mais triste

A lembrança do teu riso
enche o vazio dos meus entardeceres
no Norte

No teu abraço
minha solidão errante encontrou abrigo
e agora tenho um lugar no mundo

Por tudo isso
te amo assim, com a suavidade
das brisas que vêm do mar

Porque teu amor é doce
e transforma minhas certezas provisórias
em preces por permanências

Te amo
porque transformas meu mundo
em algo belo

E porque não é mais preciso
refugiar minhas fragilidades em silêncio
e melancolia

E se não fora nada disso,
ainda assim te amaria como te amei
desde o princípio

A escolha da imagem

Gustav Klimt, Der Kuss ,1908, Österreichische Galerie Belvedere museum

A obra O beijo de Klimt pode ser clichê para representar o amor, mas não seria o próprio sentimento clichê? O sentimento que nos deixa a todos com os mesmos desejos, nos faz falar as mesmas palavras, ver o mundo mais belo, nos fazer sentir ter encontrado nosso lugar no mundo, a nossa tão esperada felicidade?

O sentimento do amor nos traz símbolos universais, seja pela arte ou pela poesia. A pintura do simbolista austríaco, considerada obra-prima do início do período moderno mostra esse aconchego, a noção de ter seu próprio lugar no mundo quando se está nos braços do amado. Dois corpos que quase parecem um, unidos numa bela composição Art Nouveau, em trajes elaborados do período de ouro do artista.

Klimt pintou a obra quando ainda morava com a mãe e duas irmãs solteiras. Embora o aparente recato, era um homem com um feroz apetite sexual e o quadro reflete sua fascinação pelo erotismo. Mas creio que todo mundo vê nesse quadro a beleza de um sentimento romântico. As flores em torno da cabeça da personagem feminina remetem a esse mundo de sonho quando se está amando.

A roupa do casal para mim é uma colcha de retalhos, que os une e os cobre, fragmentos de diferentes tecidos, como são compostas as relações. Apesar do ouro, das flores, da beleza dos primeiros momentos, o amor se contrói de várias diferentes peças e uma vida a dois só funciona quando ambos se encaixam numa composição que une e pode ser tecida por toda a vida. [F.S.]

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Van Gogh

Noites estreladas

o amor me foge
como os horizontes de Galeano
e a cada passo dessa longa jornada
perco um pouco mais de inocência

o amor me foge
e com ele perco noites de sono
dias de sol e de mar azul turquesa
por instantes, perco até a razão

mas não perco a arte nem a graça
porque mesmo a noite mais escura
sempre é estrelada

A escolha da imagem

La nuit étoilée, Vincent van Gogh, 1889, MoMA, The Museum of Modern Art

O quadro ao fundo da foto na qual eu figuro no perfil do blog inspirou a Gisele a fazer uma poesia para mim, que muito tem a ver com certos momentos de minha vida. É uma obra de Van Gogh, que deu nome a esta casa. A Noite Estrelada foi pintada pelo artista enquanto ele estava no sanatório em Saint-Rémy-de-Provence, um ano antes de se suicidar. 

Da janela de sua cela, ele imaginou essa noite luminosa e essa pequena cidade, com uma igreja que lembra seu país natal, a Holanda. Ele escreveu ao seu irmão Theo dizendo que “naquela manhã ele viu o país da sua janela um longo tempo antes do pôr-do-sol e que a estrela da manhã parecia muito grande.” Uma noite insana mas uma obra muito bem estruturada (veja aqui o vídeo em inglês ou francês).

 E quando o amor me foge, eu perco o sono, como Van Gogh. Nas elipses de seus traços loucos nessa noite insana eu perco a razão. Da mesma Provence, eu não vejo o país, mas vislumbro a distância que estou de casa. Van Gogh se perguntava se os pontos brilhantes no céu são tão acessíveis como os pontos negros do mapa da França, “assim como tomamos o trem para chegar ao Tarascon ou Rouen, tomamos a morte para chegar a uma estrela”. Mas eu, otimista incorrígivel, como diz o final perfeito do poema, não perco a arte nem a graça/porque mesmo a noite mais escura/sempre é estrelada. E sempre olhei para esse quadro sem dar muita importância ao seu nome e sua história, no lugar da lua eu sempre vi o sol. 

 Se não tem nada como um dia após o outro, é porque a noite é a parte fundamental para fazer com que a gente entenda o que é superação. Uma noite em claro nos faz ver toda a escuridão da desesperança se transformar num céu claro iluminado pela estrela da manhã. Uma métafora para a vida, pena que Van Gogh não se deixou iluminar pelo brilho de sua própria obra e sucumbiu à escuridão e à desesperança. [F.S]

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