Linder

Amélias e Eloas

1-LINDER-SANS-TITRE-1976

Não me venham com flores e bombons
Hoje não é um dia para se comemorar
Não exaltem minha delicadeza feminina
Não me digam o quanto sou luz ou conforto
Não ousem me mandar mensagens melosas

Hoje não se comemora nem a beleza nem a delicadeza
Hoje é dia de lembrar das mulheres maltratadas
Exploradas, violadas, espancadas, baleadas
Dia das que recebem os menores salários
Das que fazem jornadas duplas, triplas

Não me deem parabéns porque sou mulher
Não deveria haver nada de especial nisso
Não poderia haver nada menor nisso
Sou apenas gente, pessoa, criatura
Querendo um mundo sem Dia

Version française Andres Pasquis:

Ne venez pas me parler de fleurs ou de bonbons,
Car la date d’aujourd’hui n’est pas une date à célébrer.
Je ne veux rien savoir sur ma “féminité” ou ma “délicatesse”,
Ni sur la chaleur ou le confort que ma présence apporte.
Et n’osez surtout pas m’envoyer de messages mielleux…

Aujourd’hui on ne fête ni la beauté, ni la délicatesse,
C’est une journée pour se rappeler des femmes maltraitées,
Exploitées, violées, battues, tuées,
Pour penser à celles qui sont les plus mal payées
De celles qui font des doubles voire triples journées…

Ne me félicitez pas d’être une femme,
Il ne devrait y avoir rien de spécial à ce propos,
Et Il ne devrait n’y avoir rien d’inférieur à cela.
Je ne suis qu’un être, une personne, une créature,
Voulant un monde sans “Journée de…”.

A escolha da imagem

Linder, sem titulo, 1976, Fotomontagem original, colagem sobre página de revista

As fotomontagens de Linder chamam atenção para a exploração do corpo feminino que transformam as mulheres em objetos, muitas vezes domésticos ou como fugazes doces a serem consumidos. Desde o dia 1° de fevereiro e até 21 de abril, o Museu de Arte Moderna de Paris exibe Femme / Objet (Mulher / Objeto), a primeira retrospectiva consagrada a artista britânica.(clique aqui para ver outras obras). 

A imagem escolhida, retirada de um anúncio de escova elétrica para cabelos, ganha colagens que transformam a mulher em uma pessoa triste, um olhar de quem foi maltratada mas que precisa forçar um sorriso, maquiar o desespero escondido por um batom vermelho. Um sorriso de palhaço, a exacerbação da estética nesse mundo onde se exige tanto da imagem da mulher. Onde é preciso estar sempre bela, maquiada, magra e ainda ser sexy, profissional e dona de casa. A escova de cabelo vira uma arma, querendo acabar com toda a opressão, seja nela mesma ou na sociedade.

Sensibilizada pelo Movimento de Liberação das Mulheres desde os 16 anos, a artista sempre se considerou feminista. Nascida em 1954, Linda Mulvey cresceu perto de Manchester durante a crise econômica, onde o movimento punk chegou no verão de 1976. Ela estudou concepção gráfica na Universidade de Manchester, onde realiza sua primeira fotomontagem em 1976. Como o artista dada Helmut Herzfeld que transformou seu nome em Jonh Heartfield para apoiar os ingleses em 1916, ela decidiu escolher um nome de sonoridade alemã: Linder.

Muito antes de Lady Gaga chocar com seu vestido de carne, Linder ja tinha utilizado uma roupa dessas no show de sua banda em Haçienda, em 1982. Cabeças de galinha, patas e visceras coletadas de lixeiras de restaurantes chineses, adornavam sua saia e seu espartilho, onde a artista, vegetariana, expressava seu desgosto. Ao tirar a saia negra de tules, Linder, usando um vibrador preto, cantava e gritava: “Women, wake up!” (Mulheres, acordem!). O vídeo da performance também pode ser visto na exposição.

Sobre suas fotomontagens que marcam sua obra, que incluem também a fotografia, ela muitas vezes é objeto e descreve o trabalho como auto-montagens: “Sempre gostei de revistas, eu tinha duas pilhas diferentes, uma de revistas femininas, moda, romance… E a outra pilha era constituída de revistas para homens: automóveis, trabalhos manuais, pornografia (um outro aspecto do universo feminino). Eu queria acasalar as cozinhas bem organizadas e a pornografia para ver que tipo de espécie nasceria. Eu trabalho sempre sobre uma placa de vidro, com um bisturi, bem limpo, como seu eu fizesse um quebra-cabeça.”.

O trabalho é super minucioso, as colagens são perfeitas mesmo vendo as obras bem de perto. Outras denunciam a técnica a favor da estética como as flores e doces coladas escondendo o ato sexual pornográfico, sorrisos exagerados em mulheres que posam para fotos como se o corpo fosse mercadoria e outras em que objetos domésticos fazem parte, extensão de seus corpos. 

Em 2012, a artista começou uma série chamada The myth of the birth of the hero, dessa vez com fotos masculinas retiradas de revistas gays pois “não encontramos em nenhum outro lugar o homem heterossexual erótico”. E achei as imagens tão tristes e deploráveis como na série feminina. Isso deixa claro para mim que humanos, independente do gênero, não devem ser tratados como coisas. E nós mulheres não queremos distinção nem no pior e nem no melhor, como se um dia de homenagens apagasse toda violência, repressão e mal tratos físicos, morais e alguns até inconscientes que nos tornam escravas de padrões. Como diz a frase de Linder em néon nas paredes do museu: « Anatomy is not destiny » (Anatomia não é destino). [Fernanda Souza]

Le choix de l’image

Linder, Sans titre, 1976, Photomontage original, Collage sur page de magazine

Les photomontages de Linder attirent l’attention sur l’exploitation du corps féminin qui transforment les femmes en objets domestiques ou fugaces pâtisseries à être dévorées. Le Musée d’Art moderne de Paris présente la première rétrospective consacrée à l’artiste britannique dans l’exposition intitulé Femme /Objet, jusqu’à 21 avril. (cliquez ici pour voir d’autre œuvres).

L’œuvre choisie pour ce poème a été inspirée par une annonce de brosse à cheveux électrique. Les collages ont transformé la femme en quelqu’un de triste, avec le regarde de quelqu’un qui a été maltraité qui se force à sourire, et maquille le désespoir caché sous le rouge à lèvres. Un sourire de pitre, l’exacerbation de l’esthétique dans une société qui exige beaucoup de l’image des femmes. Des femmes qui doivent être toujours belles, minces, être professionnelles et s’occuper de la maison. 

La brosse à cheveux est une arme, symbole d’oppression,que la femme peut retourner contre elle ou pointer contre la société.

Attirée par le « Women’s Liberation Movement » (Mouvement de Libération des Femmes) dès l’age de 16 ans, l’artiste s’est toujours considérée comme une féministe. Elle est née en 1954 et a grandi près de Manchester en pleine crise économique, où le mouvement Punk est arrivée pendant l’été de 1976. Elle étudie la conception graphique à l’Université de Manchester, où elle réalise ses premiers photomontages dès 1976. De même que l’artiste Dada Helmut Hertzfeld avait transformé son nom en John Heartfield pour soutenir les Anglais en 1916, elle décide de choisir un nom à consonance allemande : Linder.

Bien avant Lady Gaga qui q choqué avec sa robe de morceau de viande, Linder en avait porté une robe, identique, lors d’un concert à Haçienda, en 1982. Des têtes de poulet, des pattes et des viscères provenant directement des poubelles d’un restaurant chinois ornaient sa jupe et son corset pour exprimer – en tant que végétarienne – sa rage et son dégoût. En soulevant son jupon de tulle noir, Linder révélait un énorme godemiché noir, elle chante puis hurle “Women, wake up!” La vidéo de la performance est visible dans l’expo.

Dans les photomontages, ce qui est le plus remarquable dans son œuvre – et inclut également la photographie – Linder est à plusieurs fois elle même objet et décrire ses travaux comme des « auto-montages » : « J’ai toujours aimé les magazines, j’en avais deux piles distinctes, l’une constituée de magazines féminins : mode, romance… L’autre pile était constituée de magazines pour hommes : automobile, bricolage, pornographie (un autre aspect de l’univers féminin). Je voulais faire s’accoupler les cuisines aménagées et la pornographie afin de voir quelle espèce en naîtrait. Je travaille toujours sur une plaque de verre, au scalpel, très proprement, comme si je faisais un puzzle. »

Son travail est très minutieux, les collages sont parfaits même si on regarde de très près. D’autres dénoncent la technique en faveur de l’esthétique avec des fleurs et pâtisseries collées qui cachent l’acte sexuel pornographique, des souris caricaturées en femmes comme si leurs corps était une marchandises et autres en qui les objets domestiques fait partie, sont une extension de ses corps.

En 2012 l’artiste a commencé une série intitulé The myth of the birth of the hero, avec des photos d’hommes extraits de magazines gays car « on ne trouve nulle part ailleurs l’homme hétérosexuel érotique ». Et j’ai trouvé les images aussi tristes et déplorables que dans la série pour les femmes. C’est clair pour moi que les humains, indépendemment du genre, ne doivent pas être traités en objets. Et nous femmes, on ne veux pas de distinctions ni pour le pire, ni pour le meilleur, comme si une journée d’honneur efface tout la violence, la répression et les maltraitances physiques et psychiques. Il y a des traces de cette répression qui parfois sont même inconscientes, qui nous font esclaves des certaines normes. Comme a dit Linder dans une phrase en néon dans les murs du musée « Anatomy is not destiny ». [Fernanda Souza]

Sobre o título do poema

As propagandas e mensagens de Dia das Mulheres sempre me incomodaram. Criam prisões lindas, luxuosas, mas não menos prisões por isso. Objetivamente, não consigo ver muitas diferenças entre homens e mulheres e essa conversa sempre me irrita profundamente. Nos dias que antecedem o 8 de Março, mais ainda. Especialmente quando vejo um dia de luta se tornar um dia de consumo, fetiche e violência simbólica. O título do poema faz referência ao clássico do samba composto por Ataulfo Alves e Mário Lago em 1942 e desde então um grande sucesso, daqueles que ainda se canta hoje em rodas de samba por aí, uns sem prestar atenção na letra, outros com saudades dessa pobre figura sem voz nem rosto. A outra referência é mais contemporânea: Eloá Pimentel foi morta pelo ex-namorado aos 15 anos 2008, depois de ser  mantida em cárcere privado por quatro dias, tudo transmitido ao vivo, em rede nacional. Mais um entre tantos casos de mulheres agredidas e assassinadas por homens que não conseguem vê-las como pessoas, mas como objetos que lhes pertencem, e somente a eles, com a função de servirem seus desejos. Para mim, enquanto tivermos Amélias e Eloás, não há nada para se comemorar no Dia Internacional da Mulher. [Gisele Neuls]

Concernant le titre du poème

Les publicités et messages diffusés à l’occasion de la Journée de la Femme m’ont toujours dérangée. Bien qu’elles créent de belles et luxueuses prisons, cela reste des prisons. D’un point de vue objectif, je n’arrive vraiment pas à distinguer beaucoup de différences entre hommes et femmes. C’est du reste une discussion qui m’énerve au plus haut point, et pis encore lorsqu’il s’agit du 8 mars. Ce qui m’irrite plus précisément, c’est d’assister à la transformation d’un jour de lutte en un jour de consommation, de fétichisme et de violence symbolique. Le premier prénom du titre du poème fait référence à un grand classique de la samba de 1942, composé par Astaulfo Alves e Mário Lago, un grand succès de l’époque. Il est, de nos jours, encore chanté par quelques intégrants de « rodas de samba », sans qu’ils prêtent forcément attention aux paroles, tandis que d’autres regrettent cette triste silhouette sans voix ni visage. L’autre référence est plus contemporaine : Eloá Pimentel fut assassinée en 2008 à l’âge de 15 ans par son ex-copagnon, après 4 jours de captivité diffusés en live sur les chaînes nationales. C’est un cas parmi tant d’autres de femmes agressées et assassinées par des hommes incapables de les considérer en tant qu’êtres humains. Des hommes qui les perçoivent plutôt comme des objets leur appartenant, susceptibles d’exaucer leurs souhaits. Pour ma part, tant qu’il existera des Amélias et des Eloás, il n’y aura rien à célébrer lors de la Journée Internationale de la Femme. [Gisele Neuls]

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Nailia Schwarz

Mulheres Maravilha

Nailia Schwarz

Nós assoviamos e chupamos cana
enquanto escolhemos o caminho
no campo minado do cotidiano

Nós dançamos e equilibramos pratos
enquanto nos preocupamos e sorrimos
e, às vezes, quebramos alguns

Nós adoçamos essa vida dura
com um pouco de poesia e arte
mas, às vezes, elas nos escapam

A escolha da imagem

A escolha da imagem foi obra do acaso. Vi um site de fotografia recomendado por um amigo no facebook, fui espiar, ao mesmo tempo conversávamos eu e a Fer sobre o fato de que precisamos de umas férias, e bati o olho nessa imagem. Ela é perfeita para esse momento em que nós duas estamos atribuladas com novo trabalho, mudanças, viagens, e quando vemos, é sábado e não escolhemos a poesia e a arte para publicar. Esse site é um projeto para nos dar prazer e satisfação, não dor e obrigação. É nossa janela da alma, não um lugar onde batemos ponto. Então, se precisamos de férias, férias tiraremos. Provavelmente voltamos depois do carnaval.

O poema foi a inspiração da hora, nasceu agora há pouco mesmo, olhando pra essa imagem e conversando sobre nosso cotidiano. Afinal, a Fer e eu somos mulheres maravilha ao nosso jeito. A obra é de uma fotógrafa alemã cuja biografia não encontrei, mas, para quem arriscar um alemão ou um google translate, o site oficial dela, com outras fotos muito legais, está aqui. [Gisele Neuls]

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Oswaldo Goeldi

Navegante

goeldi_mar

Oceanos me habitam
Calmarias e tempestades
assolam essas tantas ilhas
que, do horizonte, me acenam
Para viver, atraco no cotidiano
Mas sou navegante
Há mistério nas águas

A escolha da imagem

Perigos do mar, circa 1955, assinada, xilogravura a cores, 5/7, Coleção Fundação Biblioteca Nacional

As xilogravuras coloridas de Goeldi mais uma vez inspiram e se casam com poemas escritos pela Gisele. A imagem não só mostra esse oceano de tempestades enfrentado por navegantes, mas o cotidiano desses pescadores, que se atracam em águas ora calmas, ora turbulentas no dia-a-dia da profissão, para viver, para ganhar o pão, ganhar o peixe. E os mistérios das águas, bem representadas pelo artista por um verde turvo, são ignorados por aqueles que navegam. Mas nós, espectadores podemos ver uma espécie de tubarão que está submerso. Mas aquele que é navegante e que carrega esses oceanos volúveis não conhece, muitas vezes, os mistérios que habitam dentro de si.

Essa gravura foi feita nos anos 50,  época de reconhecimento para Goeldi. O artista brasileiro expõem em diversos países nessa década. Em 51 seu esforço como pioneiro na xilogravura colorida é reconhecido com um prêmio na I Bienal Internacional do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1953 ele tem uma sala destinada a suas obras na II Bienal de São Paulo. Nos anos seguintes ele passa a trabalhar com formatos maiores e madeiras tropicais, mais resistentes e duras, como a peroba-rosa. Suas gravuras atingem um alto grau técnico e com grandes contrastes de impressão. [Fernanda Souza]

Saiba mais sobre o artista através de outra obra de Goeldi publicada nesse blog

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Billy Hare

Lista de afazeres para um ano novo

billyharePreciso descobrir onde se compram estrelas
para iluminar essa escuridão errante.
As minhas foram para galáxias insondáveis
e não parece possível que voltem.

Preciso descobrir onde se encontram novo riso
e alegria, porque minha existência solitária
não sabe mais onde perdeu os que eu tinha

Isso para não falar do calor do abraço e
do conforto do afago, que também não há
mais por aqui. Será que ainda se fabricam
em algum lugar?

Preciso também de mapas. Mapas serão
fundamentais nesse novo ano! Preciso de mapas
que me levem a alguns lugares que antevi
em noites de paixão febril.

Mapas que indiquem o caminho para os
paraísos coloridos há tanto tempo experimentados,
já pálidos no espelho da memória.

Não que eu queira paradeiros definitivos,
mas seria algo mágico encontrar uma acolhida
demorada para amainar essa tristeza delirante.

A escolha da imagem

Billy Hare, La Huega, Ica 1984, MALI, Museo de Arte de Lima

Essa paisagem solitária demonstra o sentimento transmitido pela poesia, de alguém perdido e que quer sair dessa aridez de sentimentos do caminho onde se encontra, que quer encontrar o oásis dos abraços, das acolhidas, traduzido por “paraísos coloridos”. Esse deserto em preto e branco é frio, sem estrelas, sem alegria.

A escolha da imagem se dá mais pela emoção e aí quando vou investigar a obra descubro que ela se encaixa nos nossos propósitos. A ideia do fotógrafo peruano era um sentido romântico de transcendência. A imagem mostra a fotógrafa norte americana Linda Connor, confrontada com esse imenso deserto. E transcendência é o que precisamos na virada de um novo ano. Essa data, que sempre nos faz pensar em novos objetivos, nos renova esperanças, nos faz refletir, em forma de listas de afazeres, sobre o que precisamos colocar em prática para atravessar o deserto do ano que passou. Já existe um caminho trilhado que nos trouxe até aqui, como vemos na imagem, e para seguir em frente estamos sozinhos, temos obstáculos a transpor, montanhas. A ideia de um novo ano sempre traz em si e em nós uma ideia de mudança, renovação. É só a continuação do caminho, mas cabe a cada um fazer dele novo. Se não mudar a estrada, pode mudar o jeito de caminhar. Mesmo que o paradeiro não seja definido, que os objetivos não sejam todos conquistados em 12 meses, o importante é seguir em frente e não deixar que a imensa paisagem nos apequene. [Fernanda Souza]

Desejamos um ótimo 2013 aos nossos leitores, sempre com poesia e arte para dar mais cor e sentimento aos nossos dias. Voltaremos em janeiro! Boas festas!

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Oswaldo Goeldi

Solidão líquida

goeldi

Chove.
A cidade oscila entre o cinza e o azul,
a noite oscila entre o negro e o cintilante.
Respiro longo para sentir o ar gelado,
para calar o fundo do peito.

Encho-me de frio e umidade
para calar ânsias e desatinos,
desejos e destinos.

São horas de distâncias e ausências,
de vazios e palpitações.
Horas de borboleta sob o copo.

Chove.
A cidade se reflete, úmida e bela.
Penso longe, imaginação-água,
aguda, desvairada
impossível.

São horas de melancolia.

A escolha da imagem

Oswaldo Goeldi, Chuvacirca 1957, xilogravura a cores, 2/12, Coleção Frederico Mendes de Moraes

Quando Goeldi fez as ilustrações do livro Cobra Norato do escritor Raul Bopp em 1937, ele disse que o artista era “interessado em passar ao leitor a poética do texto”. E eis que essa sua xilogravura delicada parece ter sido feito sob medida para os versos desse poema. Desenhista e ilustrador, o artista fazia trabalhos para jornais, revistas e livros como meio de ganhar a vida, mas é como gravador que se destaca.

O tema chuva é recorrente em sua obra, influência dos 18 anos que o artista carioca viveu na Suíça. A chuva é associada à solidão, à nostalgia, aos desatinos e ânsias que a personagem do poema quer calar na umidade dessa solidão líquida. A solidão é o eu interior do artista na sua arte e a chuva é um dos temas sombrios escolhido por Goeldi, bem como a morte, personagens marginais, cenas noturnas e recantos abandonados. Temas que ficam muito bem representados no preto e branco da xilogravura. Mas o artista também ousa em usar cores nos seus trabalhos. As tentativas começaram em 32 mas é em 37, com o livro de Bopp, que ele sistematiza a técnica.

Entre outras obras mais sombrias associadas ao tema da chuva, essa em especial traz o vermelho, que para os românticos alemães, escola ao qual o artista fazia parte, significa alegria. “Goeldi associa estados de alma à cor vermelha”, é o belo que traz a chuva do poema. É a melancolia que tem uma esperança no verde do horizonte.

Eu tenho vivido numa cidade chuvosa e algumas vezes o líquido das precipitações se misturam às lágrimas que insistem em cair enquanto eu caminho em noites geladas e penso em todos os anseios que tenho, os desatinos que atormentam a minha alma, as distâncias curtas que se fazem longas, que se fazem ausência, que me dão vazio que calam no fundo do peito, uma frieza no coração, uma umidade na alma. Penso nas distâncias longas que não quero percorrer e na solidão que tudo isso me provoca.

E essa umidade da alma me fez lembrar de um trecho do livro Como água para chocolate, de Laura Esquivel, a teoria dos fósforos, é hora de tentar reacendê-los, antes que minha alma seja impregnada de umidade:

“A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigênio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigênio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer tipo de alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentiremo-nos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras, esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica úmida e já não poderemos acender um único fósforo.
Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que o corpo que deixou inerte, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.”

Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos úmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução.

Tita deixou que algumas lágrimas deslizassem pelo seu rosto. Com doçura John secou-lhas com o seu lenço.

– É claro que também é preciso ter o cuidado de ir acen­dendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver normalmente e então aparece aos nossos olhos um túnel esplendoroso que nos mostra o caminho que esquecemos no momento de nascer e que nos chama a reencontrar a nossa origem divina perdida.” [Fernanda Souza]

*Recomendo a clicar nos links que espalhei pelo texto (que são bem sutis nesse template do blog, tem que passar o mouse por cima). Eles são do site oficial do artista, que tem muitas informações e é bem organizado.

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Maria Bonomi

menina

Perdi teu olhar
pelo caminho,
ganhei saudade…

Perdi teu abraço
no fim da linha,
ganhei solidão…

Perdi teus lábios
já nem sei onde,
ganhei tristeza…

Perdi teu amor,
ganhei poesia…

A escolha da imagem

Maria Bonomi, Menina, 1946

Dessa vez a Gi escolheu a obra para o poema. Passei para ela o site de Maria Bonomi [www.mariabonomi.com.br] e ela encontrou essa pintura de 1946. Se a data está correta, a artista tinha apenas 11 anos quando a fez. Nascida na Itália, de mãe brasileira, deixou o seu país natal nos primeiros anos da 2ª Guerra Mundial e foi morar com o avô, o já afamado Giuseppe Martinelli, no Rio de Janeiro. Com a morte do avô em 1946, Maria se instala em São Paulo. A artista, como ela mesma diz, sempre teve obessão do desenho, uma maneira de lidar com o problema de surdez que a acompanhava quando criança. Com talento precoce, em 1950 ela é levada ao atelier do expressionista Lasar Segall. Este a encaminha para a pintora Yolanda Mohalyi com quem começa a desenvolver suas técnicas de pintura. Hoje Bonomi é um dos nomes mais expressivos da gravura brasileira.

Mas voltando à obra, essa menina triste retrata uma precoce poetiza que pode perder tudo, mas da experiência sempre ganhará a poesia. Para não esquecer da inspiração e não se deixar perder na imaginação do olhar ao longe dos poetas, o fiel companheiro, o caderno, registro da memória, da criação. O quadro tem traços modernos, no fundo abstrato e nos traços inacabados. “Não sei explicar como, mas sem conhecer a pintura moderna, meus primeiros quadros tinham um parentesco com a escola impressionista”, conta a artista no livro Maria Bonomi: da gravura à arte pública. [Fernanda Souza]

A escolha da imagem 2

Quando a Fer me mostrou essa artista, logo me identifiquei com esse quadro. Eu fui uma menina como essa, com arroubos de melancolia, rabiscando versos nos meus cadernos, a cabeça enfiada em livros e romances imaginários. Logo o quadro me lembrou desse poema, simples mas cheio dessa melancolia, dessa tristeza profunda e mansa, que toma todo coração poema vez por outra. [Gisele Neuls]

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Vassily Kandinsky

O Trem

O coração é de um poeta é um trem desgovernado
cheio de sentimentos prestes a descarrilar
Uma profusão de emoções desencontradas
Se amontoam nos cantos do pensamento
Deformando a vista das coisas do mundo

– ou será que as coisas do mundo são todas
deformadas e o olhar poético é que as conserta?

A escolha da imagem

Vassily Kandinsky, Gelb-Rot-Blau (Jaune-rouge-bleu), 1925, Centre Pompidou

O russo Vassily Kandinsky é o pioneiro da abstração nas artes plásticas. Nesse quadro, chamado Amarelo, vermelho e azul, temos a “profusão de emoções desencontradas” que se passa no coração do poeta, como diz o poema. Não há sentido nessas figuras sem formas, essas linhas que atravessam a obra, essas cores que misturadas criam tons inimagináveis. Será uma obra deformada? Será nosso olhar capaz de lhe dar sentido, de consertá-la?

Kandinsky procurava em suas linhas bem traçadas, essas geometrias lúdicas e essas cores particulares à ele substituir o objeto da arte clássica. Ele procurava o “espiritual na arte”, que é o nome de uma de suas obras de estudo. Como os poetas, ele tinha uma “necessidade de interior”. E como retratar esse sentimento particular de cada artista? O que se passa dentro dele no momento da inspiração? Essa avalanche de sentimentos, o trem desgovernado que precisa entrar nos trilhos para que a obra, seja poética ou uma pintura, ganhe materialização. Eis o que vemos na tela. [Fernanda Souza]

*Foto Fernanda Souza, Centro Pompidou, Paris, 2010

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