Vassily Kandinsky

O Trem

O coração é de um poeta é um trem desgovernado
cheio de sentimentos prestes a descarrilar
Uma profusão de emoções desencontradas
Se amontoam nos cantos do pensamento
Deformando a vista das coisas do mundo

– ou será que as coisas do mundo são todas
deformadas e o olhar poético é que as conserta?

A escolha da imagem

Vassily Kandinsky, Gelb-Rot-Blau (Jaune-rouge-bleu), 1925, Centre Pompidou

O russo Vassily Kandinsky é o pioneiro da abstração nas artes plásticas. Nesse quadro, chamado Amarelo, vermelho e azul, temos a “profusão de emoções desencontradas” que se passa no coração do poeta, como diz o poema. Não há sentido nessas figuras sem formas, essas linhas que atravessam a obra, essas cores que misturadas criam tons inimagináveis. Será uma obra deformada? Será nosso olhar capaz de lhe dar sentido, de consertá-la?

Kandinsky procurava em suas linhas bem traçadas, essas geometrias lúdicas e essas cores particulares à ele substituir o objeto da arte clássica. Ele procurava o “espiritual na arte”, que é o nome de uma de suas obras de estudo. Como os poetas, ele tinha uma “necessidade de interior”. E como retratar esse sentimento particular de cada artista? O que se passa dentro dele no momento da inspiração? Essa avalanche de sentimentos, o trem desgovernado que precisa entrar nos trilhos para que a obra, seja poética ou uma pintura, ganhe materialização. Eis o que vemos na tela. [Fernanda Souza]

*Foto Fernanda Souza, Centro Pompidou, Paris, 2010

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