Tarsila do Amaral

O peso do Norte

O peso do Norte curva meus ombros
Então, contemplo a via láctea
Ela sorri pisca-piscando
E põe minhas dúvidas em outro lugar

 

A escolha da imagem

Tarsila do Amaral – Sol poente, 1929, Coleção Geneviève e Jean Boghici, Rio de Janeiro, RJ

O poema fala sobre o “peso do Norte” e cita uma contemplação da via láctea, que para mim pode ser representada por esse sol-céu da obra de Tarsila. Um céu carregado, um sol que jamais se apaga e cria esse peso, oposto das terras do Sul deixadas pela autora do poema. Mas também um sol revigorante, sorrisos ao inverso, que lhe dá energia para continuar
no seu exílio.

A obra faz parte da fase mais surrealista da artista brasileira e ela a descreve de uma forma de alguém que também busca em si mesmo respostas e as encontra na paisagem:  “Falar com Deus era para mim esse quadro: eu sentada, do terreiro olhando esse tronco que tinha na fazenda, a cor do sol cobrindo tudo, e eu chorando, menina, pedindo perdão por meus pecados.” Amaral, Tarsila do. In: Amaral, A. 1974. [F.S]

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Tarsila do Amaral

Inverno na floresta

o inverno liga o ar-condicionado da floresta
todos os dias, ao entardecer.
e nos campos sulinos fincados no Norte
uma nuvem de poeira paira como névoa
transmutando o encanto da paisagem
da minha vida toda em tristeza e desolação.

aqui, algumas vezes, a minha poesia
se envergonha e silencia com a noite,
que se adensa e enche o mundo
com a vida etérea e misteriosa
que a cidade grande
desaprendeu a respeitar.

da rede todas as noites
contemplo a via-láctea
que sorri imensa à minha
existência microscópica.

A escolha da imagem

A lua, Tarsila do Amaral, 1928, Coleção Particular São Paulo

A paisagem fria e infinita de inverno, uma floresta de uma única árvore, um homem só, um cactus. Essa lua/rede, iluminada entre cores pesadas de uma noite densa e misteriosa.

A obra A lua  faz parte do Movimento Antropofágico inaugurado por Tarsila pela sua mais célebre obra “Abaporu“, que significa homem que come carne humana, o antropófago. O manifesto do movimento foi escrito por seu marido Oswald de Andrade que ganhou a obra como presente de aniversário. A ideia era “deglutir, engolir, a cultura européia, que era a cultura vigente na época, e transformá-la em algo bem brasileiro.”. [F.S.]

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