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O Silêncio

Musée d'Orsay

Casa vazia
Pó, teias, ecos,
Casa abandonada
Cheia de silêncios

Silêncio de ausências
De vozes idas
De risos e choros
Da ausência de silêncio

Silêncio de tristeza
Ausência de vida
De gente, de vozes
Lembranças em silêncio

Silêncio na casa
Apenas o vento, os ratos
A madeira estalando
Os barulhos do silêncio

Na ausência de vida
Presentes lembranças
Silêncio de ausência
Silêncio que mata

A escolha da imagem:

Vincent van Gogh (1853-1890), La chambre de Van Gogh à Arles, 1889 – Paris, Musée d’Orsay

Ao ler o poema, a imagem da famosa obra La chambre de Van Gogh à Arles (O quarto de Van Gogh em Arles) me veio na cabeça. A imagem colorida me remeteu ao silêncio, pois não há personagens nela, tudo está lá, parado no tempo. Silêncio rimando com solidão. E mesmo que a intenção inicial de Van Gogh ao retratar seu quarto tenha sido de mostrar tranquilidade, sabemos que o artista estava sozinho na Casa Amarela em Arles. Casa que deu nome a este blog (saiba mais clicando aqui). A casa que ele preparou para receber o amigo e parceiro artítistico Paul Gauguin, para quem ele pintou outra de suas famosas obras: os girassóis, que enfeitavam o quarto do hóspede.

A parceria não durou muito, as brigas entre eles irá resultar no surto psicótico de Van Gogh que ameaça o amigo com uma lâmina de barbear e acaba cortando a própria orelha (que também vira obra num auto-retrato bem famoso do artista).

O único barulho que parece ecoar do quadro é da madeira estalando e a estranha perspectiva escolhida por Van Gogh. Jogando com as regras tradicionais do Renascimento, a linha de fuga mostra a transgressão. Repare que a cama não poderia estar encostada na parede.

Van Gogh em carta ao seu irmão Théo explica que ele queria mostrar a simplicidade do seu quarto pelo simbolismo das cores: “A vista do quadro deve repousar a cabeça, ou melhor, a imaginação”, escreveu. Ele tenta buscar silêncio para suas aflições, mas é nessa perspectiva atormentada que a solidão do artista se manifesta, sempre há essa agonia “presentes lembranças / silêncio de ausência / silêncio que mata”, para citar os versos finais do poema.

O quadro foi pintado em três versões quase idênticas. A primeira, que é exibida no Museu Van Gogh em Amesterdã, foi feita em outubro de 1888 e foi deteriorada após uma inundação durante a internação do artista em Arles. Um ano depois ele faz duas cópias, uma com as mesmas dimensões faz parte do acervo do Art Institut de Chicago e outra, menor, pode ser vista no Museu d’Orsay em Paris.

Van Gogh não experimentou a solidão somente na vida pessoal, ele também esteve isolado no mundo das artes, gênio incompreendido, criou uma técnica própria que vai além do impressionismo, sendo difícil classificá-lo, geralmente dito como pós-impressionnista, vai influenciar os fauvistas, que exaltam a cor, como Matisse. Como todo gênio, ele foi único, seu gesto era forte, suas pinceladas criaram texturas e das suas cores nasceu uma luz própria, a luz que ele encontrou no Sul da França e que ainda brilha nos seus quadros e por mais sozinho que ele esteve, hoje, sua mensagem, sua agonia, suas dores e silêncios são compartilhados com o mundo todo. Durma com um barulho desses! [Fernanda Souza]

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Banksy

banksy_balloon_girl_-_spt_hood_cu

é como aqueles jogos
que se brincam com gatos
a fita um pouco mais no alto
balançando um passo mais longe
sempre ao alcance das unhas
mas eu não tenho garras
e pelos dedos
me escapas

A escolha da imagem:

Banksy, Balloon Girl

Difícil dizer quem é o artista. Banksy é um personagem mítico no mundo do street art. Originário de Bristol, Inglaterra, sua real identidade resta desconhecida. Ele teria nascido em 1974 e começou a manejar as latas de tinta no anos 80, depois de concluir uma formação de açougueiro. Encontramos sua arte provocativa em muros e paredes em diversas cidades da Europa. Criativo ele consegue chocar com suas mensagens e chama atenção pela técnica. Seus estêncils,  espécie de molde que artistas de rua utilizam para fazer a pintura com agilidade, são tão detalhados que pensamos que ele utiliza computadores para fazê-los.

Revolucionário e anti-guerra ele usa sua arte como um meio de comunicação para mostrar seu descontentamento com alguns fatos sociais e situações políticas. Em 2005, Banksy fez intervenções no muro de Gaza (veja aqui), na fronteira entre Israel e Palestina, com paisagens fantásticas e uma variação dessa obra que publicamos, uma garota que se deixa levar por balões, se transportando além desse muro da vergonha.

Banksy utiliza com frequência a imagem de ratos e macacos com traços humanos acompanhados de slogans provocativos. Outros temas são policiais, militares, idosos e crianças. Em 2004, um ato ousado: o artista imprime notas falsas de 10 libras e no lugar da imagem da rainha da Inglaterra ele coloca a princesa Diana e muda o “Bank of England” inscrito sobre as notas por “Banksy of England”. O dinheiro falso circula no carnaval de Notting Hill chamando atenção para as nebulosas causas do acidente da princesa.

Recentemente o artista esteve em uma exposição coletiva no Museu de La Poste, em Paris, Au-delà du Street Art (Além da Arte de Rua), que foi uma agradável surpresa pela qualidade dos trabalhos, o humor e a crítica refinada de vários artistas que participaram da mostra. Para nós, que no Brasil estamos acostumados com a pichação, fica díficil às vezes encontrar a fronteira entre a arte e o vandalismo. Mas na Europa é comum ver essas verdadeiras obras de arte tão bem integradas na paisagem urbana. Paredes abandonadas, construções e becos ermos se tornam belos através de um trabalho super elaborado, porém efêmero.

A obra escolhida é, creio eu, uma das mais conhecidas. Não é raro encontrá-la reproduzida em galerias e feiras de artesanato em Londres. Uma imagem simples, a silhueta de uma menina que perde seu balão. Mas o balão tem o formato de um coração e aí qualquer um que já teve um amor que partiu, que escapou pelos dedos ou voou para longe, se identifica, se emociona. E nem é necessário explicar porque ele ilustra o poema. Deixe sua imaginação escapar e voar ao mais longe através de algumas frases e uma imagem simples. [Fernanda Souza]

P.S.: Conheça mais as obras do artista clicando no link no nome do artista na apresentação da imagem e nos hyperlinks espalhados pelo texto
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Marina Abramović

As dores do casamento

THE HOUSE WITH OCEAN VIEW 5.preview

Quero te amar como mereces ser amado
porque não há ninguém mais especial no mundo.
Que modo será o mais correto?

Quero ser a esposa perfeita
e te proporcionar todo o contentamento.
Qual o melhor modelo de perfeição?

Quero que te orgulhes de mim
por ter tantas qualidades que te importam.
O que faço com minhas tantas falhas?

Busco pistas escondidas pelos dias
na medida do café, no tempero da comida
no mate que me espera pronto ao acordar.

Mas amor é incerteza e medo
que afligem o coração sem piedade
e torturam até a alma mais feliz.

A escolha da obra

Marina Abramović, Instalação The House with the Ocean View

Muita gente se emocionou com o video postado no youtube chamado de Um Minuto de Silêncio, que mostra o encontro de Marina Abramović com o seu ex-companheiro de trabalho e de vida Ulay após 23 anos de uma separação dramática em uma das últimas performances do casal. Quando me deparei com esse vídeo, vi que ele fazia parte de um documentário lançado em dezembro de 2012, realizado durante a retrospectiva que o MoMa de Nova York organizou em 2010 em consagração da “avó da arte da performance”. Um cinema de um centro cultural de Paris ainda estava com o filme em cartaz e fui mergulhar no universo dessa artista emblemática e que uma de suas performances retrata bem o poema “As dores do casamento”.

A instalação The House with the Ocean View (A casa com vista para o oceano) mostra três cômodos de uma casa onde a artista ritualiza ações simples do cotidiano como deitar, sentar, pensar, sonhar, como manifestação de um único estado mental. Ela reproduz cenas do dia-a-dia, como tomar banho, em uma casa de onde “você não pode sair”, segundo Marina, devido às facas nas escadas. É neste ambiente ao qual você está voluntariamente preso, do qual sair não é impossível, mas pode machucar, que encontramos a metáfora para o poema “As dores do casamento”. A busca da perfeição nos gestos diários de uma relação na qual você quer o melhor mas que também te impõe uma rotina, o automatismo do cotidiano que muitas vezes resulta no fracasso de um casamento e a pressão de fazer o melhor para algo que é sempre incerto pois não há garantias  no amor, não há garantias no casamento.

Na verdade, a obra foi inspirada pela Nova York pós 11 de Setembro. Marina tinha voltado para lá e viu como a cidade tinha mudado, as pessoas estavam mais vulneráveis  Ela resolveu então fazer a performance para “purificar a si mesma, sem comer e só beber água pura. O conceito é estar presente representando sua casa com banheiro, sala e quarto… num jeito de viver rigoroso. Ela queria se purificar para mudar o ambiente e as pessoas que foram lhe ver, fazendo-as esquecerem do tempo. Alguns vinham para alguns minutos e ficavam 3h (escute o depoimento completo em inglês da artista).

Marina é uma artista que redefiniu a arte nos últimos 40 anos. Sua carreira começou em Belgrado nos anos 70 sempre usando seu corpo como meio e vencendo seus próprios limites com performances que chocam, provocam e emocionam. De 1975 a 1988 ela se une ao artista alemão Ulay e eles trabalham as questões da dualidade em diversas performances como os dois de costas um para o outro e amarrados pelos cabelos. Um casal numa mesa de jantar que se olha em silêncio durante horas ou gritando um com o outro, bem como “Imponderabilia” onde ficam nus frente a frente nos dois lados de uma porta e obrigam o público a se esfregar contra suas carnes nuas para passar. Os dois percorreram a Europa durante 5 anos morando em uma caminhonete e fazendo arte. Depois de 12 anos juntos eles decidem se separar através da performance The Great Wall Walk. Marina e Ulay percorrem a Muralha da China durante 3 meses em lados opostos, se encontram no meio e um abraço sela o final da relação artística e amorosa.

No documentário o encontro dos dois acontece antes da cena vista no youtube. Marina conta que estava cansada das traições de Ulay, por outro lado, ele revela que ela tinha um caso com o melhor amigo do casal. Descobrimos também que foram necessários 8 anos para ter autorização do país para fazer o trajeto e neste meio tempo Ulay engravidou a tradutora.

Após The Great Wall Walk ela retoma sua carreira solo em 1989 e ela desabafa no filme: Eu tinha 40 anos, estava gorda, sem trabalho e perdi meu amor. Como um coração partido é o melhor motivador de uma mulher, Marina passa a trabalhar mais, no começo fazendo espetáculos de teatro – que é o que dava dinheiro – e continuando com as performances, conseguindo se reafirmar como artista. Ulay a chama de ambiciosa no filme. Ele acabou sendo um artista medíocre pois admite que é preguiçoso para trabalhar. Eu diria que entendo as razões dela…

Em 2010 a consagração de Marina vem com a retrospectiva no MoMa intitulada “The artists is present” (A artista está presente). Além dos vários andares do Museu de Arte Moderna de NY que mostravam imagens e vídeos de instalações, Marina estaria realmente presente em mais uma performance que exigiria esforço e disciplina. Simples: duas cadeiras frente a frente, Marina sentada em uma delas recebia o público que se revezava para passar um minuto ou mais em silêncio, somente trocando olhares com a artista. Durante três meses ela passou o dia inteiro sentada, na mesma posição, desde a abertura até o fechamento do museu, sem levantar, sem ir ao banheiro, sem comer, alimentando-se somente da energia e do carinho do público que muitas vezes se emocionava e caia no choro. “Um visitante passa 30 segundos a contemplar uma obra de arte, mesmo em frente à Monalisa. Mas na exposição de Marina, os espectadores ficavam horas”, alguns dormiram do lado de fora do museu para conseguir seus 30 segundos com a artista. O documentário mostra vários retratos desses visitantes.

Na exposição as suas performances mais marcantes foram reproduzidas por 41 jovens artistas escolhidos e treinados por Marina. Mais do que uma ideia, a performance artística exige esforço, disciplina física e mental e superação de limites. A educação rígida de pai militar lhe deu o preparo que ela precisa e a carência da relação com a sua mãe é suprida nessa necessidade de ter o público por perto, como seu alimento e também como forma de reconhecimento do seu trabalho.

Ela fez workshops com os jovens artistas em sua casa de campo onde cozinhou massa com molho de abobrinhas para recebê-los e achei engraçado e me identifiquei pois esta foi uma receita que a Gi me ensinou e que não é muito ortodoxa, quando a fiz aqui na França ela foi recebida com um certo estranhamento.

Após 40 anos de dúvida se seu trabalho é ou não arte, Marina se diz cansada do rótulo “alternativa”: “Tenho 63 anos! Eu não quero mais ser alternativa! Eu quero que a performance seja uma verdadeira forma artística respeitada antes da minha morte”. O sucesso na exposição do MoMa com certeza mudou este panorama e Marina não é só avó, mas diva da performance. [Fernanda Souza]

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Linz Lynn

Liberdade

Windswept

Quero mais liberdade

Liberdade pra te amar
Pra te deixar
Pra voltar

Quero ser mais livre

Livre pra te abraçar
Pra te tocar
Te beijar

Quero liberdade total

Pra falar
Pra te ouvir
Pra calar

Quero me sentir mais livre

Pra ir embora agora
Pra voltar quando quiser
Pra sentir saudade

É pena, meu amor
Preciso voar

A escolha da imagem

Linz Lynn, Windswept, Tela em giclée com pintura em ouro à mão no fundo. Edição de 50 peças.

Quando vi essa obra ela me fez lembrar o espírito da Gi, esses cabelos revoltos, esse colorido intenso. Depois foi só olhar a lista de poesias e logo que vi o título Liberdade pensei: é esta!

Na obra da inglesa Linz Lynn, radicada nos Estados Unidos, esta mulher de cabelo multicor, radiante e jogado ao vento que para mim representa a mulher da poesia. Livre para voar, para partir; representada da esquerda para direita como quem vai na direção oposta, contra ao vento. Ela quer amar com liberdade de ir e vir, pois o amor não é o bastante nem para lhe fazer voar, nem para manter seus pés no chão. Ela precisa do voo colorido e solitário, é dessas pessoas que são transportadas pelos ventos da liberdade individual, de quem se conhece bem, se aceita e se vê multicor.

No título da obra – algo como varrida pelo vento – e na expressão da mulher vemos uma contrariedade, uma certa tristeza contida pela força de quem ela é, o choro engolido, a pena de quem precisa seguir em frente.

A artista, natural de Londres, está radicada nos EUA desde 1992. Desde pequena mostrou interesse pelas artes e seus pais a enviaram, então para uma escola de teatro. Em 73 ela passou a dedicar sua criatividade artística para a pintura e seu conhecimento teatral lhe ajudou a ter sensibilidade para transferir emoções para suas telas. Ela usa a técnica do giclée, nome de origem francesa que significa espirrar, jorrar. A técnica é utilizada para imprimir obras de arte em diferentes materiais através de impressora jato de tinta de alta definição. [Fernanda Souza]

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Linder

Amélias e Eloas

1-LINDER-SANS-TITRE-1976

Não me venham com flores e bombons
Hoje não é um dia para se comemorar
Não exaltem minha delicadeza feminina
Não me digam o quanto sou luz ou conforto
Não ousem me mandar mensagens melosas

Hoje não se comemora nem a beleza nem a delicadeza
Hoje é dia de lembrar das mulheres maltratadas
Exploradas, violadas, espancadas, baleadas
Dia das que recebem os menores salários
Das que fazem jornadas duplas, triplas

Não me deem parabéns porque sou mulher
Não deveria haver nada de especial nisso
Não poderia haver nada menor nisso
Sou apenas gente, pessoa, criatura
Querendo um mundo sem Dia

Version française Andres Pasquis:

Ne venez pas me parler de fleurs ou de bonbons,
Car la date d’aujourd’hui n’est pas une date à célébrer.
Je ne veux rien savoir sur ma “féminité” ou ma “délicatesse”,
Ni sur la chaleur ou le confort que ma présence apporte.
Et n’osez surtout pas m’envoyer de messages mielleux…

Aujourd’hui on ne fête ni la beauté, ni la délicatesse,
C’est une journée pour se rappeler des femmes maltraitées,
Exploitées, violées, battues, tuées,
Pour penser à celles qui sont les plus mal payées
De celles qui font des doubles voire triples journées…

Ne me félicitez pas d’être une femme,
Il ne devrait y avoir rien de spécial à ce propos,
Et Il ne devrait n’y avoir rien d’inférieur à cela.
Je ne suis qu’un être, une personne, une créature,
Voulant un monde sans “Journée de…”.

A escolha da imagem

Linder, sem titulo, 1976, Fotomontagem original, colagem sobre página de revista

As fotomontagens de Linder chamam atenção para a exploração do corpo feminino que transformam as mulheres em objetos, muitas vezes domésticos ou como fugazes doces a serem consumidos. Desde o dia 1° de fevereiro e até 21 de abril, o Museu de Arte Moderna de Paris exibe Femme / Objet (Mulher / Objeto), a primeira retrospectiva consagrada a artista britânica.(clique aqui para ver outras obras). 

A imagem escolhida, retirada de um anúncio de escova elétrica para cabelos, ganha colagens que transformam a mulher em uma pessoa triste, um olhar de quem foi maltratada mas que precisa forçar um sorriso, maquiar o desespero escondido por um batom vermelho. Um sorriso de palhaço, a exacerbação da estética nesse mundo onde se exige tanto da imagem da mulher. Onde é preciso estar sempre bela, maquiada, magra e ainda ser sexy, profissional e dona de casa. A escova de cabelo vira uma arma, querendo acabar com toda a opressão, seja nela mesma ou na sociedade.

Sensibilizada pelo Movimento de Liberação das Mulheres desde os 16 anos, a artista sempre se considerou feminista. Nascida em 1954, Linda Mulvey cresceu perto de Manchester durante a crise econômica, onde o movimento punk chegou no verão de 1976. Ela estudou concepção gráfica na Universidade de Manchester, onde realiza sua primeira fotomontagem em 1976. Como o artista dada Helmut Herzfeld que transformou seu nome em Jonh Heartfield para apoiar os ingleses em 1916, ela decidiu escolher um nome de sonoridade alemã: Linder.

Muito antes de Lady Gaga chocar com seu vestido de carne, Linder ja tinha utilizado uma roupa dessas no show de sua banda em Haçienda, em 1982. Cabeças de galinha, patas e visceras coletadas de lixeiras de restaurantes chineses, adornavam sua saia e seu espartilho, onde a artista, vegetariana, expressava seu desgosto. Ao tirar a saia negra de tules, Linder, usando um vibrador preto, cantava e gritava: “Women, wake up!” (Mulheres, acordem!). O vídeo da performance também pode ser visto na exposição.

Sobre suas fotomontagens que marcam sua obra, que incluem também a fotografia, ela muitas vezes é objeto e descreve o trabalho como auto-montagens: “Sempre gostei de revistas, eu tinha duas pilhas diferentes, uma de revistas femininas, moda, romance… E a outra pilha era constituída de revistas para homens: automóveis, trabalhos manuais, pornografia (um outro aspecto do universo feminino). Eu queria acasalar as cozinhas bem organizadas e a pornografia para ver que tipo de espécie nasceria. Eu trabalho sempre sobre uma placa de vidro, com um bisturi, bem limpo, como seu eu fizesse um quebra-cabeça.”.

O trabalho é super minucioso, as colagens são perfeitas mesmo vendo as obras bem de perto. Outras denunciam a técnica a favor da estética como as flores e doces coladas escondendo o ato sexual pornográfico, sorrisos exagerados em mulheres que posam para fotos como se o corpo fosse mercadoria e outras em que objetos domésticos fazem parte, extensão de seus corpos. 

Em 2012, a artista começou uma série chamada The myth of the birth of the hero, dessa vez com fotos masculinas retiradas de revistas gays pois “não encontramos em nenhum outro lugar o homem heterossexual erótico”. E achei as imagens tão tristes e deploráveis como na série feminina. Isso deixa claro para mim que humanos, independente do gênero, não devem ser tratados como coisas. E nós mulheres não queremos distinção nem no pior e nem no melhor, como se um dia de homenagens apagasse toda violência, repressão e mal tratos físicos, morais e alguns até inconscientes que nos tornam escravas de padrões. Como diz a frase de Linder em néon nas paredes do museu: « Anatomy is not destiny » (Anatomia não é destino). [Fernanda Souza]

Le choix de l’image

Linder, Sans titre, 1976, Photomontage original, Collage sur page de magazine

Les photomontages de Linder attirent l’attention sur l’exploitation du corps féminin qui transforment les femmes en objets domestiques ou fugaces pâtisseries à être dévorées. Le Musée d’Art moderne de Paris présente la première rétrospective consacrée à l’artiste britannique dans l’exposition intitulé Femme /Objet, jusqu’à 21 avril. (cliquez ici pour voir d’autre œuvres).

L’œuvre choisie pour ce poème a été inspirée par une annonce de brosse à cheveux électrique. Les collages ont transformé la femme en quelqu’un de triste, avec le regarde de quelqu’un qui a été maltraité qui se force à sourire, et maquille le désespoir caché sous le rouge à lèvres. Un sourire de pitre, l’exacerbation de l’esthétique dans une société qui exige beaucoup de l’image des femmes. Des femmes qui doivent être toujours belles, minces, être professionnelles et s’occuper de la maison. 

La brosse à cheveux est une arme, symbole d’oppression,que la femme peut retourner contre elle ou pointer contre la société.

Attirée par le « Women’s Liberation Movement » (Mouvement de Libération des Femmes) dès l’age de 16 ans, l’artiste s’est toujours considérée comme une féministe. Elle est née en 1954 et a grandi près de Manchester en pleine crise économique, où le mouvement Punk est arrivée pendant l’été de 1976. Elle étudie la conception graphique à l’Université de Manchester, où elle réalise ses premiers photomontages dès 1976. De même que l’artiste Dada Helmut Hertzfeld avait transformé son nom en John Heartfield pour soutenir les Anglais en 1916, elle décide de choisir un nom à consonance allemande : Linder.

Bien avant Lady Gaga qui q choqué avec sa robe de morceau de viande, Linder en avait porté une robe, identique, lors d’un concert à Haçienda, en 1982. Des têtes de poulet, des pattes et des viscères provenant directement des poubelles d’un restaurant chinois ornaient sa jupe et son corset pour exprimer – en tant que végétarienne – sa rage et son dégoût. En soulevant son jupon de tulle noir, Linder révélait un énorme godemiché noir, elle chante puis hurle “Women, wake up!” La vidéo de la performance est visible dans l’expo.

Dans les photomontages, ce qui est le plus remarquable dans son œuvre – et inclut également la photographie – Linder est à plusieurs fois elle même objet et décrire ses travaux comme des « auto-montages » : « J’ai toujours aimé les magazines, j’en avais deux piles distinctes, l’une constituée de magazines féminins : mode, romance… L’autre pile était constituée de magazines pour hommes : automobile, bricolage, pornographie (un autre aspect de l’univers féminin). Je voulais faire s’accoupler les cuisines aménagées et la pornographie afin de voir quelle espèce en naîtrait. Je travaille toujours sur une plaque de verre, au scalpel, très proprement, comme si je faisais un puzzle. »

Son travail est très minutieux, les collages sont parfaits même si on regarde de très près. D’autres dénoncent la technique en faveur de l’esthétique avec des fleurs et pâtisseries collées qui cachent l’acte sexuel pornographique, des souris caricaturées en femmes comme si leurs corps était une marchandises et autres en qui les objets domestiques fait partie, sont une extension de ses corps.

En 2012 l’artiste a commencé une série intitulé The myth of the birth of the hero, avec des photos d’hommes extraits de magazines gays car « on ne trouve nulle part ailleurs l’homme hétérosexuel érotique ». Et j’ai trouvé les images aussi tristes et déplorables que dans la série pour les femmes. C’est clair pour moi que les humains, indépendemment du genre, ne doivent pas être traités en objets. Et nous femmes, on ne veux pas de distinctions ni pour le pire, ni pour le meilleur, comme si une journée d’honneur efface tout la violence, la répression et les maltraitances physiques et psychiques. Il y a des traces de cette répression qui parfois sont même inconscientes, qui nous font esclaves des certaines normes. Comme a dit Linder dans une phrase en néon dans les murs du musée « Anatomy is not destiny ». [Fernanda Souza]

Sobre o título do poema

As propagandas e mensagens de Dia das Mulheres sempre me incomodaram. Criam prisões lindas, luxuosas, mas não menos prisões por isso. Objetivamente, não consigo ver muitas diferenças entre homens e mulheres e essa conversa sempre me irrita profundamente. Nos dias que antecedem o 8 de Março, mais ainda. Especialmente quando vejo um dia de luta se tornar um dia de consumo, fetiche e violência simbólica. O título do poema faz referência ao clássico do samba composto por Ataulfo Alves e Mário Lago em 1942 e desde então um grande sucesso, daqueles que ainda se canta hoje em rodas de samba por aí, uns sem prestar atenção na letra, outros com saudades dessa pobre figura sem voz nem rosto. A outra referência é mais contemporânea: Eloá Pimentel foi morta pelo ex-namorado aos 15 anos 2008, depois de ser  mantida em cárcere privado por quatro dias, tudo transmitido ao vivo, em rede nacional. Mais um entre tantos casos de mulheres agredidas e assassinadas por homens que não conseguem vê-las como pessoas, mas como objetos que lhes pertencem, e somente a eles, com a função de servirem seus desejos. Para mim, enquanto tivermos Amélias e Eloás, não há nada para se comemorar no Dia Internacional da Mulher. [Gisele Neuls]

Concernant le titre du poème

Les publicités et messages diffusés à l’occasion de la Journée de la Femme m’ont toujours dérangée. Bien qu’elles créent de belles et luxueuses prisons, cela reste des prisons. D’un point de vue objectif, je n’arrive vraiment pas à distinguer beaucoup de différences entre hommes et femmes. C’est du reste une discussion qui m’énerve au plus haut point, et pis encore lorsqu’il s’agit du 8 mars. Ce qui m’irrite plus précisément, c’est d’assister à la transformation d’un jour de lutte en un jour de consommation, de fétichisme et de violence symbolique. Le premier prénom du titre du poème fait référence à un grand classique de la samba de 1942, composé par Astaulfo Alves e Mário Lago, un grand succès de l’époque. Il est, de nos jours, encore chanté par quelques intégrants de « rodas de samba », sans qu’ils prêtent forcément attention aux paroles, tandis que d’autres regrettent cette triste silhouette sans voix ni visage. L’autre référence est plus contemporaine : Eloá Pimentel fut assassinée en 2008 à l’âge de 15 ans par son ex-copagnon, après 4 jours de captivité diffusés en live sur les chaînes nationales. C’est un cas parmi tant d’autres de femmes agressées et assassinées par des hommes incapables de les considérer en tant qu’êtres humains. Des hommes qui les perçoivent plutôt comme des objets leur appartenant, susceptibles d’exaucer leurs souhaits. Pour ma part, tant qu’il existera des Amélias et des Eloás, il n’y aura rien à célébrer lors de la Journée Internationale de la Femme. [Gisele Neuls]

Padrão
Nailia Schwarz

Mulheres Maravilha

Nailia Schwarz

Nós assoviamos e chupamos cana
enquanto escolhemos o caminho
no campo minado do cotidiano

Nós dançamos e equilibramos pratos
enquanto nos preocupamos e sorrimos
e, às vezes, quebramos alguns

Nós adoçamos essa vida dura
com um pouco de poesia e arte
mas, às vezes, elas nos escapam

A escolha da imagem

A escolha da imagem foi obra do acaso. Vi um site de fotografia recomendado por um amigo no facebook, fui espiar, ao mesmo tempo conversávamos eu e a Fer sobre o fato de que precisamos de umas férias, e bati o olho nessa imagem. Ela é perfeita para esse momento em que nós duas estamos atribuladas com novo trabalho, mudanças, viagens, e quando vemos, é sábado e não escolhemos a poesia e a arte para publicar. Esse site é um projeto para nos dar prazer e satisfação, não dor e obrigação. É nossa janela da alma, não um lugar onde batemos ponto. Então, se precisamos de férias, férias tiraremos. Provavelmente voltamos depois do carnaval.

O poema foi a inspiração da hora, nasceu agora há pouco mesmo, olhando pra essa imagem e conversando sobre nosso cotidiano. Afinal, a Fer e eu somos mulheres maravilha ao nosso jeito. A obra é de uma fotógrafa alemã cuja biografia não encontrei, mas, para quem arriscar um alemão ou um google translate, o site oficial dela, com outras fotos muito legais, está aqui. [Gisele Neuls]

Padrão
Oswaldo Goeldi

Navegante

goeldi_mar

Oceanos me habitam
Calmarias e tempestades
assolam essas tantas ilhas
que, do horizonte, me acenam
Para viver, atraco no cotidiano
Mas sou navegante
Há mistério nas águas

A escolha da imagem

Perigos do mar, circa 1955, assinada, xilogravura a cores, 5/7, Coleção Fundação Biblioteca Nacional

As xilogravuras coloridas de Goeldi mais uma vez inspiram e se casam com poemas escritos pela Gisele. A imagem não só mostra esse oceano de tempestades enfrentado por navegantes, mas o cotidiano desses pescadores, que se atracam em águas ora calmas, ora turbulentas no dia-a-dia da profissão, para viver, para ganhar o pão, ganhar o peixe. E os mistérios das águas, bem representadas pelo artista por um verde turvo, são ignorados por aqueles que navegam. Mas nós, espectadores podemos ver uma espécie de tubarão que está submerso. Mas aquele que é navegante e que carrega esses oceanos volúveis não conhece, muitas vezes, os mistérios que habitam dentro de si.

Essa gravura foi feita nos anos 50,  época de reconhecimento para Goeldi. O artista brasileiro expõem em diversos países nessa década. Em 51 seu esforço como pioneiro na xilogravura colorida é reconhecido com um prêmio na I Bienal Internacional do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1953 ele tem uma sala destinada a suas obras na II Bienal de São Paulo. Nos anos seguintes ele passa a trabalhar com formatos maiores e madeiras tropicais, mais resistentes e duras, como a peroba-rosa. Suas gravuras atingem um alto grau técnico e com grandes contrastes de impressão. [Fernanda Souza]

Saiba mais sobre o artista através de outra obra de Goeldi publicada nesse blog

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