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O Silêncio

Musée d'Orsay

Casa vazia
Pó, teias, ecos,
Casa abandonada
Cheia de silêncios

Silêncio de ausências
De vozes idas
De risos e choros
Da ausência de silêncio

Silêncio de tristeza
Ausência de vida
De gente, de vozes
Lembranças em silêncio

Silêncio na casa
Apenas o vento, os ratos
A madeira estalando
Os barulhos do silêncio

Na ausência de vida
Presentes lembranças
Silêncio de ausência
Silêncio que mata

A escolha da imagem:

Vincent van Gogh (1853-1890), La chambre de Van Gogh à Arles, 1889 – Paris, Musée d’Orsay

Ao ler o poema, a imagem da famosa obra La chambre de Van Gogh à Arles (O quarto de Van Gogh em Arles) me veio na cabeça. A imagem colorida me remeteu ao silêncio, pois não há personagens nela, tudo está lá, parado no tempo. Silêncio rimando com solidão. E mesmo que a intenção inicial de Van Gogh ao retratar seu quarto tenha sido de mostrar tranquilidade, sabemos que o artista estava sozinho na Casa Amarela em Arles. Casa que deu nome a este blog (saiba mais clicando aqui). A casa que ele preparou para receber o amigo e parceiro artítistico Paul Gauguin, para quem ele pintou outra de suas famosas obras: os girassóis, que enfeitavam o quarto do hóspede.

A parceria não durou muito, as brigas entre eles irá resultar no surto psicótico de Van Gogh que ameaça o amigo com uma lâmina de barbear e acaba cortando a própria orelha (que também vira obra num auto-retrato bem famoso do artista).

O único barulho que parece ecoar do quadro é da madeira estalando e a estranha perspectiva escolhida por Van Gogh. Jogando com as regras tradicionais do Renascimento, a linha de fuga mostra a transgressão. Repare que a cama não poderia estar encostada na parede.

Van Gogh em carta ao seu irmão Théo explica que ele queria mostrar a simplicidade do seu quarto pelo simbolismo das cores: “A vista do quadro deve repousar a cabeça, ou melhor, a imaginação”, escreveu. Ele tenta buscar silêncio para suas aflições, mas é nessa perspectiva atormentada que a solidão do artista se manifesta, sempre há essa agonia “presentes lembranças / silêncio de ausência / silêncio que mata”, para citar os versos finais do poema.

O quadro foi pintado em três versões quase idênticas. A primeira, que é exibida no Museu Van Gogh em Amesterdã, foi feita em outubro de 1888 e foi deteriorada após uma inundação durante a internação do artista em Arles. Um ano depois ele faz duas cópias, uma com as mesmas dimensões faz parte do acervo do Art Institut de Chicago e outra, menor, pode ser vista no Museu d’Orsay em Paris.

Van Gogh não experimentou a solidão somente na vida pessoal, ele também esteve isolado no mundo das artes, gênio incompreendido, criou uma técnica própria que vai além do impressionismo, sendo difícil classificá-lo, geralmente dito como pós-impressionnista, vai influenciar os fauvistas, que exaltam a cor, como Matisse. Como todo gênio, ele foi único, seu gesto era forte, suas pinceladas criaram texturas e das suas cores nasceu uma luz própria, a luz que ele encontrou no Sul da França e que ainda brilha nos seus quadros e por mais sozinho que ele esteve, hoje, sua mensagem, sua agonia, suas dores e silêncios são compartilhados com o mundo todo. Durma com um barulho desses! [Fernanda Souza]

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Música

A poesia se foi
Um dia, atravessou a rua
ficou indecisa um instante
Direita? Esquerda? Retorno?
Escolheu e seguiu adiante,
nem um aceno por cima do ombro.
Dobrou a esquina
e não foi mais vista.

A escolha da arte
Ten Years Gone, Led Zeppelin

Aqui se fala da poesia, mas nós também podemos tomar nossas licenças poéticas, não? É bom que se aperte o play e comece a ler, porque aí a palavra acaba na tela e continua na voz do Robert Plant e nesses riffs do Page que nos deixam catatônicos.

Ten Years Gone é uma canção de um Led Zeppelin já famoso e vagando pela estrada. Ia dizer “de um dos melhores discos”, mas não tem melhor disco do Led.

Ela fala de um lindo amor que Plant vivia antes da banda estourar, e por obra das circunstâncias deixou para trás, para chegar até nós. Ele mostra como as mudanças causaram essa distância, e quando fala da música hoje em dia diz que “nunca mais a viu”.

Contudo, há lembrança. A marca que tudo deixa no nosso caminho particular fica lá, intacto. E por si só desencadeia mudanças também.

A poesia pode nos deixar quantas vezes ela quiser, e ela vai fazer isso. Porque é livre. Mas a firmeza é densidade, e não permite que a gente deixe de lado o que já nos fez bem, a palavra, o afago e o afeto. Que tenha sido em um centésimo de momento. Será, hoje. Será, daqui dez anos. [Daniela Ribeiro]

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