As dores do casamento

Por: Gisele Neuls

mar 22 2013

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Categoria: Marina Abramović

1 comentário

Quero te amar como mereces ser amado
porque não há ninguém mais especial no mundo.
Que modo será o mais correto?

Quero ser a esposa perfeita
e te proporcionar todo o contentamento.
Qual o melhor modelo de perfeição?

Quero que te orgulhes de mim
por ter tantas qualidades que te importam.
O que faço com minhas tantas falhas?

Busco pistas escondidas pelos dias
na medida do café, no tempero da comida
no mate que me espera pronto ao acordar.

Mas amor é incerteza e medo
que afligem o coração sem piedade
e torturam até a alma mais feliz.

A escolha da obra

Marina Abramović, Instalação The House with the Ocean View

Muita gente se emocionou com o video postado no youtube chamado de Um Minuto de Silêncio, que mostra o encontro de Marina Abramović com o seu ex-companheiro de trabalho e de vida Ulay após 23 anos de uma separação dramática em uma das últimas performances do casal. Quando me deparei com esse vídeo, vi que ele fazia parte de um documentário lançado em dezembro de 2012, realizado durante a retrospectiva que o MoMa de Nova York organizou em 2010 em consagração da “avó da arte da performance”. Um cinema de um centro cultural de Paris ainda estava com o filme em cartaz e fui mergulhar no universo dessa artista emblemática e que uma de suas performances retrata bem o poema “As dores do casamento”.

A instalação The House with the Ocean View (A casa com vista para o oceano) mostra três cômodos de uma casa onde a artista ritualiza ações simples do cotidiano como deitar, sentar, pensar, sonhar, como manifestação de um único estado mental. Ela reproduz cenas do dia-a-dia, como tomar banho, em uma casa de onde “você não pode sair”, segundo Marina, devido às facas nas escadas. É neste ambiente ao qual você está voluntariamente preso, do qual sair não é impossível, mas pode machucar, que encontramos a metáfora para o poema “As dores do casamento”. A busca da perfeição nos gestos diários de uma relação na qual você quer o melhor mas que também te impõe uma rotina, o automatismo do cotidiano que muitas vezes resulta no fracasso de um casamento e a pressão de fazer o melhor para algo que é sempre incerto pois não há garantias  no amor, não há garantias no casamento.

Na verdade, a obra foi inspirada pela Nova York pós 11 de Setembro. Marina tinha voltado para lá e viu como a cidade tinha mudado, as pessoas estavam mais vulneráveis  Ela resolveu então fazer a performance para “purificar a si mesma, sem comer e só beber água pura. O conceito é estar presente representando sua casa com banheiro, sala e quarto… num jeito de viver rigoroso. Ela queria se purificar para mudar o ambiente e as pessoas que foram lhe ver, fazendo-as esquecerem do tempo. Alguns vinham para alguns minutos e ficavam 3h (escute o depoimento completo em inglês da artista).

Marina é uma artista que redefiniu a arte nos últimos 40 anos. Sua carreira começou em Belgrado nos anos 70 sempre usando seu corpo como meio e vencendo seus próprios limites com performances que chocam, provocam e emocionam. De 1975 a 1988 ela se une ao artista alemão Ulay e eles trabalham as questões da dualidade em diversas performances como os dois de costas um para o outro e amarrados pelos cabelos. Um casal numa mesa de jantar que se olha em silêncio durante horas ou gritando um com o outro, bem como “Imponderabilia” onde ficam nus frente a frente nos dois lados de uma porta e obrigam o público a se esfregar contra suas carnes nuas para passar. Os dois percorreram a Europa durante 5 anos morando em uma caminhonete e fazendo arte. Depois de 12 anos juntos eles decidem se separar através da performance The Great Wall Walk. Marina e Ulay percorrem a Muralha da China durante 3 meses em lados opostos, se encontram no meio e um abraço sela o final da relação artística e amorosa.

No documentário o encontro dos dois acontece antes da cena vista no youtube. Marina conta que estava cansada das traições de Ulay, por outro lado, ele revela que ela tinha um caso com o melhor amigo do casal. Descobrimos também que foram necessários 8 anos para ter autorização do país para fazer o trajeto e neste meio tempo Ulay engravidou a tradutora.

Após The Great Wall Walk ela retoma sua carreira solo em 1989 e ela desabafa no filme: Eu tinha 40 anos, estava gorda, sem trabalho e perdi meu amor. Como um coração partido é o melhor motivador de uma mulher, Marina passa a trabalhar mais, no começo fazendo espetáculos de teatro – que é o que dava dinheiro – e continuando com as performances, conseguindo se reafirmar como artista. Ulay a chama de ambiciosa no filme. Ele acabou sendo um artista medíocre pois admite que é preguiçoso para trabalhar. Eu diria que entendo as razões dela…

Em 2010 a consagração de Marina vem com a retrospectiva no MoMa intitulada “The artists is present” (A artista está presente). Além dos vários andares do Museu de Arte Moderna de NY que mostravam imagens e vídeos de instalações, Marina estaria realmente presente em mais uma performance que exigiria esforço e disciplina. Simples: duas cadeiras frente a frente, Marina sentada em uma delas recebia o público que se revezava para passar um minuto ou mais em silêncio, somente trocando olhares com a artista. Durante três meses ela passou o dia inteiro sentada, na mesma posição, desde a abertura até o fechamento do museu, sem levantar, sem ir ao banheiro, sem comer, alimentando-se somente da energia e do carinho do público que muitas vezes se emocionava e caia no choro. “Um visitante passa 30 segundos a contemplar uma obra de arte, mesmo em frente à Monalisa. Mas na exposição de Marina, os espectadores ficavam horas”, alguns dormiram do lado de fora do museu para conseguir seus 30 segundos com a artista. O documentário mostra vários retratos desses visitantes.

Na exposição as suas performances mais marcantes foram reproduzidas por 41 jovens artistas escolhidos e treinados por Marina. Mais do que uma ideia, a performance artística exige esforço, disciplina física e mental e superação de limites. A educação rígida de pai militar lhe deu o preparo que ela precisa e a carência da relação com a sua mãe é suprida nessa necessidade de ter o público por perto, como seu alimento e também como forma de reconhecimento do seu trabalho.

Ela fez workshops com os jovens artistas em sua casa de campo onde cozinhou massa com molho de abobrinhas para recebê-los e achei engraçado e me identifiquei pois esta foi uma receita que a Gi me ensinou e que não é muito ortodoxa, quando a fiz aqui na França ela foi recebida com um certo estranhamento.

Após 40 anos de dúvida se seu trabalho é ou não arte, Marina se diz cansada do rótulo “alternativa”: “Tenho 63 anos! Eu não quero mais ser alternativa! Eu quero que a performance seja uma verdadeira forma artística respeitada antes da minha morte”. O sucesso na exposição do MoMa com certeza mudou este panorama e Marina não é só avó, mas diva da performance. [Fernanda Souza]

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Um comentário em “As dores do casamento”

  1. O legal do casamento é que a gente aprende um com o outro. É isso que os solteiros mais perdem. Não tem ninguém para lhes ensinar a lição tão de pertinho…


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