Billy Hare

Lista de afazeres para um ano novo

billyharePreciso descobrir onde se compram estrelas
para iluminar essa escuridão errante.
As minhas foram para galáxias insondáveis
e não parece possível que voltem.

Preciso descobrir onde se encontram novo riso
e alegria, porque minha existência solitária
não sabe mais onde perdeu os que eu tinha

Isso para não falar do calor do abraço e
do conforto do afago, que também não há
mais por aqui. Será que ainda se fabricam
em algum lugar?

Preciso também de mapas. Mapas serão
fundamentais nesse novo ano! Preciso de mapas
que me levem a alguns lugares que antevi
em noites de paixão febril.

Mapas que indiquem o caminho para os
paraísos coloridos há tanto tempo experimentados,
já pálidos no espelho da memória.

Não que eu queira paradeiros definitivos,
mas seria algo mágico encontrar uma acolhida
demorada para amainar essa tristeza delirante.

A escolha da imagem

Billy Hare, La Huega, Ica 1984, MALI, Museo de Arte de Lima

Essa paisagem solitária demonstra o sentimento transmitido pela poesia, de alguém perdido e que quer sair dessa aridez de sentimentos do caminho onde se encontra, que quer encontrar o oásis dos abraços, das acolhidas, traduzido por “paraísos coloridos”. Esse deserto em preto e branco é frio, sem estrelas, sem alegria.

A escolha da imagem se dá mais pela emoção e aí quando vou investigar a obra descubro que ela se encaixa nos nossos propósitos. A ideia do fotógrafo peruano era um sentido romântico de transcendência. A imagem mostra a fotógrafa norte americana Linda Connor, confrontada com esse imenso deserto. E transcendência é o que precisamos na virada de um novo ano. Essa data, que sempre nos faz pensar em novos objetivos, nos renova esperanças, nos faz refletir, em forma de listas de afazeres, sobre o que precisamos colocar em prática para atravessar o deserto do ano que passou. Já existe um caminho trilhado que nos trouxe até aqui, como vemos na imagem, e para seguir em frente estamos sozinhos, temos obstáculos a transpor, montanhas. A ideia de um novo ano sempre traz em si e em nós uma ideia de mudança, renovação. É só a continuação do caminho, mas cabe a cada um fazer dele novo. Se não mudar a estrada, pode mudar o jeito de caminhar. Mesmo que o paradeiro não seja definido, que os objetivos não sejam todos conquistados em 12 meses, o importante é seguir em frente e não deixar que a imensa paisagem nos apequene. [Fernanda Souza]

Desejamos um ótimo 2013 aos nossos leitores, sempre com poesia e arte para dar mais cor e sentimento aos nossos dias. Voltaremos em janeiro! Boas festas!

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Oswaldo Goeldi

Solidão líquida

goeldi

Chove.
A cidade oscila entre o cinza e o azul,
a noite oscila entre o negro e o cintilante.
Respiro longo para sentir o ar gelado,
para calar o fundo do peito.

Encho-me de frio e umidade
para calar ânsias e desatinos,
desejos e destinos.

São horas de distâncias e ausências,
de vazios e palpitações.
Horas de borboleta sob o copo.

Chove.
A cidade se reflete, úmida e bela.
Penso longe, imaginação-água,
aguda, desvairada
impossível.

São horas de melancolia.

A escolha da imagem

Oswaldo Goeldi, Chuvacirca 1957, xilogravura a cores, 2/12, Coleção Frederico Mendes de Moraes

Quando Goeldi fez as ilustrações do livro Cobra Norato do escritor Raul Bopp em 1937, ele disse que o artista era “interessado em passar ao leitor a poética do texto”. E eis que essa sua xilogravura delicada parece ter sido feito sob medida para os versos desse poema. Desenhista e ilustrador, o artista fazia trabalhos para jornais, revistas e livros como meio de ganhar a vida, mas é como gravador que se destaca.

O tema chuva é recorrente em sua obra, influência dos 18 anos que o artista carioca viveu na Suíça. A chuva é associada à solidão, à nostalgia, aos desatinos e ânsias que a personagem do poema quer calar na umidade dessa solidão líquida. A solidão é o eu interior do artista na sua arte e a chuva é um dos temas sombrios escolhido por Goeldi, bem como a morte, personagens marginais, cenas noturnas e recantos abandonados. Temas que ficam muito bem representados no preto e branco da xilogravura. Mas o artista também ousa em usar cores nos seus trabalhos. As tentativas começaram em 32 mas é em 37, com o livro de Bopp, que ele sistematiza a técnica.

Entre outras obras mais sombrias associadas ao tema da chuva, essa em especial traz o vermelho, que para os românticos alemães, escola ao qual o artista fazia parte, significa alegria. “Goeldi associa estados de alma à cor vermelha”, é o belo que traz a chuva do poema. É a melancolia que tem uma esperança no verde do horizonte.

Eu tenho vivido numa cidade chuvosa e algumas vezes o líquido das precipitações se misturam às lágrimas que insistem em cair enquanto eu caminho em noites geladas e penso em todos os anseios que tenho, os desatinos que atormentam a minha alma, as distâncias curtas que se fazem longas, que se fazem ausência, que me dão vazio que calam no fundo do peito, uma frieza no coração, uma umidade na alma. Penso nas distâncias longas que não quero percorrer e na solidão que tudo isso me provoca.

E essa umidade da alma me fez lembrar de um trecho do livro Como água para chocolate, de Laura Esquivel, a teoria dos fósforos, é hora de tentar reacendê-los, antes que minha alma seja impregnada de umidade:

“A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigênio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigênio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer tipo de alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentiremo-nos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras, esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica úmida e já não poderemos acender um único fósforo.
Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que o corpo que deixou inerte, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.”

Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos úmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução.

Tita deixou que algumas lágrimas deslizassem pelo seu rosto. Com doçura John secou-lhas com o seu lenço.

– É claro que também é preciso ter o cuidado de ir acen­dendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver normalmente e então aparece aos nossos olhos um túnel esplendoroso que nos mostra o caminho que esquecemos no momento de nascer e que nos chama a reencontrar a nossa origem divina perdida.” [Fernanda Souza]

*Recomendo a clicar nos links que espalhei pelo texto (que são bem sutis nesse template do blog, tem que passar o mouse por cima). Eles são do site oficial do artista, que tem muitas informações e é bem organizado.

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Maria Bonomi

menina

Perdi teu olhar
pelo caminho,
ganhei saudade…

Perdi teu abraço
no fim da linha,
ganhei solidão…

Perdi teus lábios
já nem sei onde,
ganhei tristeza…

Perdi teu amor,
ganhei poesia…

A escolha da imagem

Maria Bonomi, Menina, 1946

Dessa vez a Gi escolheu a obra para o poema. Passei para ela o site de Maria Bonomi [www.mariabonomi.com.br] e ela encontrou essa pintura de 1946. Se a data está correta, a artista tinha apenas 11 anos quando a fez. Nascida na Itália, de mãe brasileira, deixou o seu país natal nos primeiros anos da 2ª Guerra Mundial e foi morar com o avô, o já afamado Giuseppe Martinelli, no Rio de Janeiro. Com a morte do avô em 1946, Maria se instala em São Paulo. A artista, como ela mesma diz, sempre teve obessão do desenho, uma maneira de lidar com o problema de surdez que a acompanhava quando criança. Com talento precoce, em 1950 ela é levada ao atelier do expressionista Lasar Segall. Este a encaminha para a pintora Yolanda Mohalyi com quem começa a desenvolver suas técnicas de pintura. Hoje Bonomi é um dos nomes mais expressivos da gravura brasileira.

Mas voltando à obra, essa menina triste retrata uma precoce poetiza que pode perder tudo, mas da experiência sempre ganhará a poesia. Para não esquecer da inspiração e não se deixar perder na imaginação do olhar ao longe dos poetas, o fiel companheiro, o caderno, registro da memória, da criação. O quadro tem traços modernos, no fundo abstrato e nos traços inacabados. “Não sei explicar como, mas sem conhecer a pintura moderna, meus primeiros quadros tinham um parentesco com a escola impressionista”, conta a artista no livro Maria Bonomi: da gravura à arte pública. [Fernanda Souza]

A escolha da imagem 2

Quando a Fer me mostrou essa artista, logo me identifiquei com esse quadro. Eu fui uma menina como essa, com arroubos de melancolia, rabiscando versos nos meus cadernos, a cabeça enfiada em livros e romances imaginários. Logo o quadro me lembrou desse poema, simples mas cheio dessa melancolia, dessa tristeza profunda e mansa, que toma todo coração poema vez por outra. [Gisele Neuls]

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