Pantanal

Eu me embriago de horizonte
de raio de sol, árvore e flor
viro montanha, garça, bugio
Descanso os olhos na tarde
que se derrama em cobre e ouro
Na paisagem líquida
a alma sossega, finalmente.

Sobre o poema

Quando a Fer me mandou esse Miró como um dos quadros que ela gosta, pra eu poetar sobre ele pensei: ela é má. Não podia ter sido um barroco, um renascentista, com seus anjos e madonas tão obviamente versificáveis? Passei dias e dias olhando esse Miró. O que é esse azul todo? E essas bolinhas, meu Deus, o que ele estava pensando quando pintou essas bolinhas? Deixei ele como papel de parede no computador, enquanto trabalho e estudo. Então veio a inspiração e o entendimento.

O azul me levou de volta ao Pantanal, a entardeceres nas baías da Serra do Amolar, à fruição da paisagem, ao apenas estar ali, reverente, com a serra no horizonte, sem pressa, sem agitação, sem nada, apenas o presente. Talvez seja por isso que as pessoas estranham a arte contemporânea. Imersos que estamos nessa modernidade tola e apressada, não temos tempo para deixar a arte dialogar conosco. A arte não precisa, afinal, fazer sentido, basta nos despertar os sentidos.

A escolha da imagem

Joan Miró, Bleu II (1961), Centre Pompidou, Paris

Nesse caso a explicação da escolha também vem acompanhada de porque eu gosto dessa obra. Eu sempre gostei de pinturas abstratas e quando a Gi me pediu um quadro que eu gostasse sei que não seria fácil transformar esse Miró em palavras. Minha relação com essa obra começa pela escolha da cor, azul é a minha cor preferida, mas não gosto de azul com vermelho. É aí que começa a provocação em mim. Em segundo lugar, tive o prazer de vê-la ao lado de Bleu I e Bleu III numa exposição especial da Fundação Miró, em Barcelona. Agora, quando peguei minha carta postal para ver a qual museu a obra pertence, fiquei surpresa em saber que é o Centro Pompidou em Paris, pois não me lembro de tê-la visto lá. Talvez porque ela não estava quando fui, ou foi o impacto de vê-la numa sala enorme com arquibancadas para sentar e apreciar, bem uma obra como essa – de 270 x 355 cm – pede. É esse momento de contemplação, em silêncio, a uma tela assim tão resumida e que nos faz mergulhar nesse azul infinito como é o céu e o mar que me faz amar esse quadro.

A série é fruto de um longo trabalho de maturação, foi pintada no atelier de Palma de Mallorca onde Miró finalmente poderia explorar em grandes formatos os croquis minúsculos que tinha. “São três tempos de uma mesma obra e marcam a finalização de toda sua pesquisa plástica e poética”, segundo o site do Centro Pompidou. É isso que gosto em obras abstratas, mais que imagens, elas fazem partes de estudos de cores e formas, do gesto do pincel. É o momento reflexivo do artista que sentimos ao olhar seu quadro.

Mas deixo Miró mesmo explicar para que vocês possam entender toda a dimensão dessa obra, numa tradução livre que faço das informações retiradas daqui:

“Eu precisei de muito tempo para fazê-las. Não para pintá-las, mais para meditá-las. Eu precisava de uma grande tensão interior para chegar à sobriedade desejada. A etapa preliminar era de ordem intelectual… Era como antes de uma celebração de um rito religioso, sim, como entrar em uma ordem. […] eu me preparava interiormente. E finalmente comecei a pintar: primeiro o fundo, todo azul, mais não se tratava simplesmente de colocar a cor, como um pintor de parede: todos os movimentos do pincel, os do pulso, a respiração de uma mão intervém também”. [F.S]

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