Vassily Kandinsky

O Trem

O coração é de um poeta é um trem desgovernado
cheio de sentimentos prestes a descarrilar
Uma profusão de emoções desencontradas
Se amontoam nos cantos do pensamento
Deformando a vista das coisas do mundo

– ou será que as coisas do mundo são todas
deformadas e o olhar poético é que as conserta?

A escolha da imagem

Vassily Kandinsky, Gelb-Rot-Blau (Jaune-rouge-bleu), 1925, Centre Pompidou

O russo Vassily Kandinsky é o pioneiro da abstração nas artes plásticas. Nesse quadro, chamado Amarelo, vermelho e azul, temos a “profusão de emoções desencontradas” que se passa no coração do poeta, como diz o poema. Não há sentido nessas figuras sem formas, essas linhas que atravessam a obra, essas cores que misturadas criam tons inimagináveis. Será uma obra deformada? Será nosso olhar capaz de lhe dar sentido, de consertá-la?

Kandinsky procurava em suas linhas bem traçadas, essas geometrias lúdicas e essas cores particulares à ele substituir o objeto da arte clássica. Ele procurava o “espiritual na arte”, que é o nome de uma de suas obras de estudo. Como os poetas, ele tinha uma “necessidade de interior”. E como retratar esse sentimento particular de cada artista? O que se passa dentro dele no momento da inspiração? Essa avalanche de sentimentos, o trem desgovernado que precisa entrar nos trilhos para que a obra, seja poética ou uma pintura, ganhe materialização. Eis o que vemos na tela. [Fernanda Souza]

*Foto Fernanda Souza, Centro Pompidou, Paris, 2010

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Daniel Senise

Romance de viajantes

a fantasia represou na memória o beijo
que faltou para completar o idílio
e assim vai alimentando o desejo
de multiplicar os segundos
e alongar o tempo

na retina, entre águas e cenários
ficou impresso um olhar e um riso
e os poucos passos que a hesitação
impediu a coragem de aproximar

ainda encontro esse olhar e esse riso
em algum ponto dessa estrada sem fim
talvez aqui ou em outra paisagem

A escolha da imagem

Daniel Senise, S.R. 34, (anos 2010)

Impressões da memória é disto que fala o poema e esta é a matéria-prima para as pinturas do artista contemporâneo carioca Daniel Senise. É no chão que o pintor busca memórias. Em espaços abandonados onde cria um atelier temporário, Senise imprime a superfície, seja ela de madeira ou cimento. Sua pintura colagem registra tudo que passou naquele espaço, a sujeira, as imperfeições da madeira, os traços de vidas que pisaram aquele chão.

O poema fala da lembrança de um amor não realizado, uma impressão de um olhar e um riso que a imaginação levou a guardar na memória como um beijo. Os quadros do artista como esse acima, imprimem uma memória do material, mas a impressão imaterial que cria na nossa memória pode nos fazer ver além, criar histórias sobre esse espaço, sobre por quem ali passou e o que deixou. Eu vejo algo no meio desse quadro, talvez os personagens do nosso poema, uma impressão da existência de uma paixão fugidia, registrada na memória, esquecida no tempo. Você também vê algo?

Abaixo um vídeo que fiz sobre o artista durante uma exposição retrospectiva no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs). O som está ruim, mas o próprio Senise explica a sua técnica e é sempre bom, mais do que ouvir críticos que interpretam os trabalhos de arte, ver o próprio artista falando sobre sua obra. [Fernanda Souza]

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Joan Miró

Pantanal

Eu me embriago de horizonte
de raio de sol, árvore e flor
viro montanha, garça, bugio
Descanso os olhos na tarde
que se derrama em cobre e ouro
Na paisagem líquida
a alma sossega, finalmente.

Sobre o poema

Quando a Fer me mandou esse Miró como um dos quadros que ela gosta, pra eu poetar sobre ele pensei: ela é má. Não podia ter sido um barroco, um renascentista, com seus anjos e madonas tão obviamente versificáveis? Passei dias e dias olhando esse Miró. O que é esse azul todo? E essas bolinhas, meu Deus, o que ele estava pensando quando pintou essas bolinhas? Deixei ele como papel de parede no computador, enquanto trabalho e estudo. Então veio a inspiração e o entendimento.

O azul me levou de volta ao Pantanal, a entardeceres nas baías da Serra do Amolar, à fruição da paisagem, ao apenas estar ali, reverente, com a serra no horizonte, sem pressa, sem agitação, sem nada, apenas o presente. Talvez seja por isso que as pessoas estranham a arte contemporânea. Imersos que estamos nessa modernidade tola e apressada, não temos tempo para deixar a arte dialogar conosco. A arte não precisa, afinal, fazer sentido, basta nos despertar os sentidos.

A escolha da imagem

Joan Miró, Bleu II (1961), Centre Pompidou, Paris

Nesse caso a explicação da escolha também vem acompanhada de porque eu gosto dessa obra. Eu sempre gostei de pinturas abstratas e quando a Gi me pediu um quadro que eu gostasse sei que não seria fácil transformar esse Miró em palavras. Minha relação com essa obra começa pela escolha da cor, azul é a minha cor preferida, mas não gosto de azul com vermelho. É aí que começa a provocação em mim. Em segundo lugar, tive o prazer de vê-la ao lado de Bleu I e Bleu III numa exposição especial da Fundação Miró, em Barcelona. Agora, quando peguei minha carta postal para ver a qual museu a obra pertence, fiquei surpresa em saber que é o Centro Pompidou em Paris, pois não me lembro de tê-la visto lá. Talvez porque ela não estava quando fui, ou foi o impacto de vê-la numa sala enorme com arquibancadas para sentar e apreciar, bem uma obra como essa – de 270 x 355 cm – pede. É esse momento de contemplação, em silêncio, a uma tela assim tão resumida e que nos faz mergulhar nesse azul infinito como é o céu e o mar que me faz amar esse quadro.

A série é fruto de um longo trabalho de maturação, foi pintada no atelier de Palma de Mallorca onde Miró finalmente poderia explorar em grandes formatos os croquis minúsculos que tinha. “São três tempos de uma mesma obra e marcam a finalização de toda sua pesquisa plástica e poética”, segundo o site do Centro Pompidou. É isso que gosto em obras abstratas, mais que imagens, elas fazem partes de estudos de cores e formas, do gesto do pincel. É o momento reflexivo do artista que sentimos ao olhar seu quadro.

Mas deixo Miró mesmo explicar para que vocês possam entender toda a dimensão dessa obra, numa tradução livre que faço das informações retiradas daqui:

“Eu precisei de muito tempo para fazê-las. Não para pintá-las, mais para meditá-las. Eu precisava de uma grande tensão interior para chegar à sobriedade desejada. A etapa preliminar era de ordem intelectual… Era como antes de uma celebração de um rito religioso, sim, como entrar em uma ordem. […] eu me preparava interiormente. E finalmente comecei a pintar: primeiro o fundo, todo azul, mais não se tratava simplesmente de colocar a cor, como um pintor de parede: todos os movimentos do pincel, os do pulso, a respiração de uma mão intervém também”. [F.S]

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Henri Matisse

Súcubus

Cravo, canela e pimenta
absinto, sândalo e jasmim
intoxicante e irresistível

Eu me alimento do teu desejo
cruzo as pernas com malícia
mordo a caneta, molho os lábios
te olho por baixo dos cílios

E você vem para mim
ansioso e hesitante
algumas vezes suave
quase sempre urgente

Com a ponta dos meus dedos
desenho teus lábios
passeio por teu rosto
te beijo, mordo
suspiro

E acordo sozinha
saciada e vazia

A escolha da imagem

Henri Matisse, L’odalisque à la culotte rouge (1921)

O olhar dessa “Odalisca com calça vermelha” do fovista Matisse é a ilustração dos últimos versos do poema: o olhar de quem acorda de um sonho. Um sonho em que foi saciada, como o descrito no poema. Mas ao despertar para a realidade, os olhos se rendem, distantes, ao vazio. Odaliscas serviram de inspiração para vários pintores como Ingres e Delacroix. Era a fase orientalista, inspirada pelas viagens ao Cairo. Matisse não se interessa pelo pitoresco, mas os elementos decorativos orientais encontram-se em seu traço e suas cores. Ele faz uma série de odaliscas inconfundíveis na fase em que morou em Nice, no Sul da França. Essas cores de Matisse, esses vermelhos quentes, me remetem a essa mistura dos primeiros versos – cravo, canela e pimenta – e me levam a essa atmosfera desconhecida de um Oriente distante, a essas mulheres que fazem parte de haréns, a um mundo misterioso em que as artes nos fazem penetrar. [F.S.]

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