Poema para as coisas que não mudamos


Vivo numa terra de transição
ou de transe, eterna crise
que não sabe se é Norte ou Sul

Terra onde palmeiras apontam a direção
e são a única sombra duvidosa,
perdidas nos pastos

Aqui, no inverno, as estrelas
escandalizadas, se escondem
de nossa arrogância

É que não temos vergonha alguma
de sufocar a exuberância desconhecida da floresta
com a fumaça de nossas ganâncias

Até mesmo o sol e a lua ruborizam
e apontam nossa imoralidade
com suas faces escarlates

Vivo numa terra onde as pessoas se arrogam
o direito de condenar as castanheiras
à morte por solidão.

E ainda assim há resistência!

À noite, a floresta sussurra assustadora
na tentativa incerta de espantar
borracha, lâmina e aço

Quando as primeiras águas limpam as brasas
as helicôneas ficam vermelhas outra vez
as maritacas voltam a fazer estripulias no céu

E as garças, que resistem a tudo em refúgios insólitos
nos perguntam todas as tardes
– até quando?

A escolha da imagem

Sagrado coração do Xingu II, Clóvis Huguiney Irigaray

A obra evoca a imagem do Sagrado Coração de Cristo, mas no lugar do “Salvador” uma índia, símbolo dos verdadeiros donos e guardiões da esplêndida natureza amazônica. O artista matogrossense começou a pintar temas indígenas em 1974 e fez várias releituras de obras clásssicas a partir de temas indígenas.

A pintura hiperrealista de Irigaray mostra um coração que diferente do coração do Cristo, que emana amor. O coração dessa figura monumental que ocupa o quadro, evoca as mazelas que a natureza vem sofrendo descritas no poema. É um coração que sangra, que incendeia e que recebe golpes, como nossas florestas e o rio Xingu, que nasce no Mato Grosso e deságua próximo da foz do Rio Amazonas e é fonte de água e alimentação para os índios que vivem no parque de mesmo nome, além de milhares de habitantes, lavouras e gados ao longo de sua bacia. O Xingu é a força, o coração, quem dá a vida a essa população, mas ele escoa não só água, mas lágrimas e sangue devido as suas constantes ameaças. [F.S.]

Sobre o poema

Este é mais um poema da fase Mato Grosso, escrito durante os anos em que morei naquele estado. A alegoria provavelmente falará mais alto para aqueles que vivem na Amazônia Meridional e no Cerrado e já viram muitas e muitas vezes o resultado das queimadas e do desmatamento indiscriminado nesses biomas. Resisti um pouco em incluir este poema na nossa seleção por ser muito local, talvez até cifrado para boa parte dos leitores. Mas, no fim, a poesia é linguagem universal e mesmo para quem nunca viu o sol coberto de fumaça há sentido nos versos acima. [G.N]

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