Salvador Dalí

Desengano

Sonho para ti aqueles momentos de raro prazer
que se iniciam com uma taça de vinho e terminam
em longas horas das quais não se contam os minutos

Te reservo meus pensamentos mais secretos
embalados por suaves sonatas a olhos fechados
desenhando caminhos com meus dedos
gelados de espera e paixão contida
pelos teus cabelos negros

Sonho
e nesses sonhos doces minha alma se enleva
Mas o coração apequena, quase desaparece
Porque te faltam olhos de ver sonhos, e a mim
falta coragem.

A escolha da imagem

Salvador Dalí,  Remorse or Sphinx Embedded in the Sand, 1931, Kresge Art Museum*

Sonhos e devaneios eram a matéria-prima das obras do surrealista espanhol Dalí. No sonho o ambiente é desconhecido, esquecido após o despertar. No pensamento temos as imagens, mas estamos sozinhos, imergidos no ambiente árido e frio de nosso imaginário, pois que não é concreto, não há o outro, não há o toque. A alma se enleva, a sombra de si? do outro? projetada nesse vácuo que é o pensar, nesse vácuo que é o sonhar. Os olhos fechados, a mão que cobre os olhos, os olhos que faltam, o desespero da covardia e talvez do despertar. [F.S.]

* Obrigada ao Juan Pablo Severo que ajudou a encontrar o nome da obra.
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Arte popular e Street Art

Amor platônico

Quando o moço bonito
passava pela minha janela
meu coração acelerava

Esperava, ansiosa,
uma olhadela, um sorriso
Doce paixão juvenil
a pintar sorrisos no meu rosto

A janela mudou de lugar
agora pisca à minha frente
iluminada e colorida

Mas ainda acelera o coração
à espera ansiosa de atenção
para pôr sorrisos no meu rosto

A escolha da imagem

Namoradeiras, esculturas populares da cidade de Tiradentes, Minas Gerais

Logo que li o poema pensei nessas esculturas de negras na janela à espiar os moços bonitos, como faziam as personagens da literatura do século 19, como fez Aurélia, do Senhora de José de Alencar. Era o jeito de flertar da época. Assim, sem sair de casa, as moças direitas poderiam ficar à disposição dos galanteios e, quem sabe, fazer casamento.

Pois essas as peças artesanais, chamadas de Namoradeira, viraram um símbolo da cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. Elas enfeitam o casario histórico sempre nessa mesma posição, com a cabeça apoiada na mão, essa posição de espera e charme para os passantes. Feitas de madeira, cerâmica ou gesso, essa arte popular mineira vem ganhando as janelas do país. Com vestidos decotados, maquiagem e bijuterias, as moças colocam a roupa de domingo a espera de seus pretendentes, com olhar de sonho, à espera de uma paixão ou de ver mais uma vez passar o objeto de seu amor platônico [F.S.]

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Clóvis Huguiney Irigaray

Poema para as coisas que não mudamos


Vivo numa terra de transição
ou de transe, eterna crise
que não sabe se é Norte ou Sul

Terra onde palmeiras apontam a direção
e são a única sombra duvidosa,
perdidas nos pastos

Aqui, no inverno, as estrelas
escandalizadas, se escondem
de nossa arrogância

É que não temos vergonha alguma
de sufocar a exuberância desconhecida da floresta
com a fumaça de nossas ganâncias

Até mesmo o sol e a lua ruborizam
e apontam nossa imoralidade
com suas faces escarlates

Vivo numa terra onde as pessoas se arrogam
o direito de condenar as castanheiras
à morte por solidão.

E ainda assim há resistência!

À noite, a floresta sussurra assustadora
na tentativa incerta de espantar
borracha, lâmina e aço

Quando as primeiras águas limpam as brasas
as helicôneas ficam vermelhas outra vez
as maritacas voltam a fazer estripulias no céu

E as garças, que resistem a tudo em refúgios insólitos
nos perguntam todas as tardes
– até quando?

A escolha da imagem

Sagrado coração do Xingu II, Clóvis Huguiney Irigaray

A obra evoca a imagem do Sagrado Coração de Cristo, mas no lugar do “Salvador” uma índia, símbolo dos verdadeiros donos e guardiões da esplêndida natureza amazônica. O artista matogrossense começou a pintar temas indígenas em 1974 e fez várias releituras de obras clásssicas a partir de temas indígenas.

A pintura hiperrealista de Irigaray mostra um coração que diferente do coração do Cristo, que emana amor. O coração dessa figura monumental que ocupa o quadro, evoca as mazelas que a natureza vem sofrendo descritas no poema. É um coração que sangra, que incendeia e que recebe golpes, como nossas florestas e o rio Xingu, que nasce no Mato Grosso e deságua próximo da foz do Rio Amazonas e é fonte de água e alimentação para os índios que vivem no parque de mesmo nome, além de milhares de habitantes, lavouras e gados ao longo de sua bacia. O Xingu é a força, o coração, quem dá a vida a essa população, mas ele escoa não só água, mas lágrimas e sangue devido as suas constantes ameaças. [F.S.]

Sobre o poema

Este é mais um poema da fase Mato Grosso, escrito durante os anos em que morei naquele estado. A alegoria provavelmente falará mais alto para aqueles que vivem na Amazônia Meridional e no Cerrado e já viram muitas e muitas vezes o resultado das queimadas e do desmatamento indiscriminado nesses biomas. Resisti um pouco em incluir este poema na nossa seleção por ser muito local, talvez até cifrado para boa parte dos leitores. Mas, no fim, a poesia é linguagem universal e mesmo para quem nunca viu o sol coberto de fumaça há sentido nos versos acima. [G.N]

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Gustvav Klimt

Por que te amo

Nas noites estreladas,
a luz do espaço se transfigura no teu olhar
e já não sou mais triste

A lembrança do teu riso
enche o vazio dos meus entardeceres
no Norte

No teu abraço
minha solidão errante encontrou abrigo
e agora tenho um lugar no mundo

Por tudo isso
te amo assim, com a suavidade
das brisas que vêm do mar

Porque teu amor é doce
e transforma minhas certezas provisórias
em preces por permanências

Te amo
porque transformas meu mundo
em algo belo

E porque não é mais preciso
refugiar minhas fragilidades em silêncio
e melancolia

E se não fora nada disso,
ainda assim te amaria como te amei
desde o princípio

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Gustav Klimt, Der Kuss ,1908, Österreichische Galerie Belvedere museum

A obra O beijo de Klimt pode ser clichê para representar o amor, mas não seria o próprio sentimento clichê? O sentimento que nos deixa a todos com os mesmos desejos, nos faz falar as mesmas palavras, ver o mundo mais belo, nos fazer sentir ter encontrado nosso lugar no mundo, a nossa tão esperada felicidade?

O sentimento do amor nos traz símbolos universais, seja pela arte ou pela poesia. A pintura do simbolista austríaco, considerada obra-prima do início do período moderno mostra esse aconchego, a noção de ter seu próprio lugar no mundo quando se está nos braços do amado. Dois corpos que quase parecem um, unidos numa bela composição Art Nouveau, em trajes elaborados do período de ouro do artista.

Klimt pintou a obra quando ainda morava com a mãe e duas irmãs solteiras. Embora o aparente recato, era um homem com um feroz apetite sexual e o quadro reflete sua fascinação pelo erotismo. Mas creio que todo mundo vê nesse quadro a beleza de um sentimento romântico. As flores em torno da cabeça da personagem feminina remetem a esse mundo de sonho quando se está amando.

A roupa do casal para mim é uma colcha de retalhos, que os une e os cobre, fragmentos de diferentes tecidos, como são compostas as relações. Apesar do ouro, das flores, da beleza dos primeiros momentos, o amor se contrói de várias diferentes peças e uma vida a dois só funciona quando ambos se encaixam numa composição que une e pode ser tecida por toda a vida. [F.S.]

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