Camille Claudel

Fraqueza

Traçou com a ponta dos dedos
a tênue linha
entre a razão e a insensatez

Arrepiou a pele
incendiou a razão
fez esquecer o tão sabido:
insensatez é coisa alucinógena

Foram poucos minutos no paraíso
e a queda vertiginosa.

A escolha da imagem

Camille Claudel, Dana, 1885

Não só a escultura de Camille Claudel retrata bem o poema como também a personalidade da artista. Essa mulher de talento incrível, discípula e amante de Rodin, deixou-se levar pela insensatez.

Seu talento pouco reconhecido à sombra do grande artista, precursor da escultura moderna, e a relação tumultuada com seu mestre levam Camille à solidão e à paranóia.

A escultura Dana, de formas sensuais, me faz pensar numa mulher abandonada por seu homem após o sexo. A dor do amor não correspondido na mesma instensidade, a solidão desse sentimento forte, correspondido somente no plano físico, carnal.

Rodin, que jamais irá deixar sua companheira Rose, leva Camille ao desespero e à raiva. Esse amor insensato é alucinógeno, como diz o poema, e vai guiar a artista por uma vida de sofrimento físico e moral. Esse pouco tempo no paraíso ao lado do seu mestre, a quem ela se igualou em talento participando de grandes obras como Portas do Inferno, foram a causa da queda dessa mulher. Sua fraqueza foi amar até o fim, mas suas obras são o legado de uma força e uma delicadeza incomuns. [F.S.]

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Tarsila do Amaral

O peso do Norte

O peso do Norte curva meus ombros
Então, contemplo a via láctea
Ela sorri pisca-piscando
E põe minhas dúvidas em outro lugar

 

A escolha da imagem

Tarsila do Amaral – Sol poente, 1929, Coleção Geneviève e Jean Boghici, Rio de Janeiro, RJ

O poema fala sobre o “peso do Norte” e cita uma contemplação da via láctea, que para mim pode ser representada por esse sol-céu da obra de Tarsila. Um céu carregado, um sol que jamais se apaga e cria esse peso, oposto das terras do Sul deixadas pela autora do poema. Mas também um sol revigorante, sorrisos ao inverso, que lhe dá energia para continuar
no seu exílio.

A obra faz parte da fase mais surrealista da artista brasileira e ela a descreve de uma forma de alguém que também busca em si mesmo respostas e as encontra na paisagem:  “Falar com Deus era para mim esse quadro: eu sentada, do terreiro olhando esse tronco que tinha na fazenda, a cor do sol cobrindo tudo, e eu chorando, menina, pedindo perdão por meus pecados.” Amaral, Tarsila do. In: Amaral, A. 1974. [F.S]

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Iberê Camargo

Inverno em Porto Alegre

Manhã de bruma
Gelada, translúcida
Pé na rua, frio na espinha

Meio dia,
Meio primavera,
Meio verão
Céu azul
Azul ozônio

E no fim da tarde
Vento do rio
Céu de sangue
Âmbar, coca cola
Ou vinho tinto

A escolha da imagem

A idiota, Iberê Camargo, 1991, Coleção Maria Coussirat Camargo, Fundação Iberê Camargo

Uma poesia sobre Porto Alegre tinha que ter um artista gaúcho para ilustrá-la. Iberê Camargo, nascido em Restinga Seca, no interior do Rio Grande do Sul, volta a morar em Porto Alegre em 1982 depois de anos no Rio de Janeiro. É nos anos 80, após ter sido preso por homicídio e absolvido por legítima defesa, que o pintor volta à figuração. Em 88 ele começa a série “Ciclistas”, fruto de suas observações no Parque da Redenção.

Em 1991 ele dá origem à série de pinturas “As idiotas”, um retrato da passagem do tempo, desses alienados que veem a vida passar num banco de praça. A bicicleta continua presente e essas figuras grotescas em paisagens insólitas, ora em tons azuis, ora em tons vermelhos, ganham o centro da obra e retratam a desilusão do artista, que morre de câncer em 1994.

O poema também é sobre a passagem do tempo. A mudança das horas e das cores – azul e vermelho – no céu invernal de Porto Alegre. Exatamente o que “as idiotas” veem de seu banco de praça. Para o artista algo triste e estúpido, mas para quem tem poesia, pode ser a contemplação da mudança de tons do pincel da própria natureza. [F.S.]

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Van Gogh

Noites estreladas

o amor me foge
como os horizontes de Galeano
e a cada passo dessa longa jornada
perco um pouco mais de inocência

o amor me foge
e com ele perco noites de sono
dias de sol e de mar azul turquesa
por instantes, perco até a razão

mas não perco a arte nem a graça
porque mesmo a noite mais escura
sempre é estrelada

A escolha da imagem

La nuit étoilée, Vincent van Gogh, 1889, MoMA, The Museum of Modern Art

O quadro ao fundo da foto na qual eu figuro no perfil do blog inspirou a Gisele a fazer uma poesia para mim, que muito tem a ver com certos momentos de minha vida. É uma obra de Van Gogh, que deu nome a esta casa. A Noite Estrelada foi pintada pelo artista enquanto ele estava no sanatório em Saint-Rémy-de-Provence, um ano antes de se suicidar. 

Da janela de sua cela, ele imaginou essa noite luminosa e essa pequena cidade, com uma igreja que lembra seu país natal, a Holanda. Ele escreveu ao seu irmão Theo dizendo que “naquela manhã ele viu o país da sua janela um longo tempo antes do pôr-do-sol e que a estrela da manhã parecia muito grande.” Uma noite insana mas uma obra muito bem estruturada (veja aqui o vídeo em inglês ou francês).

 E quando o amor me foge, eu perco o sono, como Van Gogh. Nas elipses de seus traços loucos nessa noite insana eu perco a razão. Da mesma Provence, eu não vejo o país, mas vislumbro a distância que estou de casa. Van Gogh se perguntava se os pontos brilhantes no céu são tão acessíveis como os pontos negros do mapa da França, “assim como tomamos o trem para chegar ao Tarascon ou Rouen, tomamos a morte para chegar a uma estrela”. Mas eu, otimista incorrígivel, como diz o final perfeito do poema, não perco a arte nem a graça/porque mesmo a noite mais escura/sempre é estrelada. E sempre olhei para esse quadro sem dar muita importância ao seu nome e sua história, no lugar da lua eu sempre vi o sol. 

 Se não tem nada como um dia após o outro, é porque a noite é a parte fundamental para fazer com que a gente entenda o que é superação. Uma noite em claro nos faz ver toda a escuridão da desesperança se transformar num céu claro iluminado pela estrela da manhã. Uma métafora para a vida, pena que Van Gogh não se deixou iluminar pelo brilho de sua própria obra e sucumbiu à escuridão e à desesperança. [F.S]

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