Friedensreich Hundertwasser

Voragem

são horas e horas de pensamentos tortos
se perdem na voragem dos poréns e senãos
desses que todos os dias se acumulam
e nos esvaziam

mastigo cada um deles por mais uma dúzia de horas insanas
e chego ao esplêndido fastio daquilo que não resolveremos
deglutido em pedacinhos açucarados de cotidiano

a busca das palavras cheias de significados só meus
e que precisam de outros tantos substantivos, adjetivos, conjunções,
e que ademais não dão substância alguma aos pensamentos
me escraviza

com a crueldade dos vícios
mais doces e, por isso mesmo,
mais violentos

A escolha da imagem

Le je ne sais pas encore La Picaudière, Friedensreich Hundertwasser, 1960, KunstHausWien, Vienne

Os espirais de austríaco Friedensreich Hundertwasser são para mim uma representação dos pensamentos, esses pensamentos que giram na mente, coloridos como são as ideias que se conectam e se desconetam nesse labirinto que não pode ser traduzido somente em palavras.

No site do artista, está escrito que “os espirais são o símbolo da vida e da morte”, que nos movemos em círculos mas que eles não são fechados. Assim são os pensamentos que também nos definem como vivos ou mortos – cogito ergo sum – já dizia Descartes com o seu penso, logo existo.

Esse espirais representam também o processo de criação poética, dar forma através de “substantivos, adjetivos, conjunções” a esse labirinto de ideias que se explodem em cores no cérebro mas que precisam de um começo e um fim.

Hundertwasser, além de pintor, também foi arquiteto e militante ecologista. O humano e seu ambiente foi o centro de suas obras. A escolha desse espiral entre tantos que ele criou se dá devido ao nome, numa tradução livre: “O eu não o sei ainda”. Como são os pensamentos tortos, como é o processo de criação artística e poética, mas em meio a esse confuso labirinto, um espiral sempre tem um curso. [F.S.]

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P.S.: Para ler esse poema do jeito certo, leia as linhas que contêm apenas uma palavra como parte da linha de cima. O template não é muito amigável com frases longas e ‘quebrou’ o ritmo de alguns versos. Por exemplo, no verso “mastigo cada um deles por mais uma dúzia de horas insanas” é um só, apesar da última palavra estar na linha de baixo ;) [G.N]

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Pablo Picasso

Espelhos

Estou perdida dentro de mim
como em uma sala de espelhos.
Qual das imagens refletidas
conterá a minha essência?

Busco a mim nos
recantos do pensamento
e tudo que encontro
é poeira e fantasmas.
Onde fui parar?

Capturo um rastro numa esquina
mas me perco quando chego lá.
Onde andará minha sombra
Nesta infinda noite escura?

Em que galáxia foram parar as estrelas
que guiavam meus passos antes?
O que aconteceu com o sol brilhante
que amainava o inverno no rosto?

Por que caminhos terá se perdido
minha lucidez, eu não sei.
Apenas sinto esse outono sombrio
soprando desespero no meu coração.

Estou perdida dentro de mim
como em uma sala de espelhos.
Quanto mais observo os reflexos,
mais me perco de mim.

A escolha da imagem

Jeune fille devant un miroir (Moça diante do espelho), Pablo Picasso, 1932

Obra da fase surrealista de Picasso, a moça diante do espelho é Marie-Thérèse Walter, uma das musas inspiradoras do artista que ele conheceu quando ela ainda era menor de idade. A imagem e o traço inconfundível do mestre espanhol falam por si só. Olhar a si mesmo no espelho é se enfrentar e mais que projetar nossa aparência física, encaramos a nós mesmos com toda a nossa complexa e inversa imagem interna. O espelho não reflete o que somos, reflete como nós nos vemos. É mais que uma imagem concreta, a virtualidade do espelho mostra através de traços figurativos nossa abstração interna. E não há como saber o quanto disso tudo reflete no olhar dos outros, espelho de nossa existência. [F.S.]

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Tarsila do Amaral

Inverno na floresta

o inverno liga o ar-condicionado da floresta
todos os dias, ao entardecer.
e nos campos sulinos fincados no Norte
uma nuvem de poeira paira como névoa
transmutando o encanto da paisagem
da minha vida toda em tristeza e desolação.

aqui, algumas vezes, a minha poesia
se envergonha e silencia com a noite,
que se adensa e enche o mundo
com a vida etérea e misteriosa
que a cidade grande
desaprendeu a respeitar.

da rede todas as noites
contemplo a via-láctea
que sorri imensa à minha
existência microscópica.

A escolha da imagem

A lua, Tarsila do Amaral, 1928, Coleção Particular São Paulo

A paisagem fria e infinita de inverno, uma floresta de uma única árvore, um homem só, um cactus. Essa lua/rede, iluminada entre cores pesadas de uma noite densa e misteriosa.

A obra A lua  faz parte do Movimento Antropofágico inaugurado por Tarsila pela sua mais célebre obra “Abaporu“, que significa homem que come carne humana, o antropófago. O manifesto do movimento foi escrito por seu marido Oswald de Andrade que ganhou a obra como presente de aniversário. A ideia era “deglutir, engolir, a cultura européia, que era a cultura vigente na época, e transformá-la em algo bem brasileiro.”. [F.S.]

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